Ingrid Gerolimich

16 de abril de 2020, 22h05

Tirem suas utopias do armário

"O importante é entendermos que a mudança não virá de uma força maior que dita os rumos da economia com sua eterna 'mão invisível'"

Reprodução

“O mundo não será mais o mesmo…”

Provavelmente, você já ouviu ou leu esta frase pelo menos uma vez durante esses tempos de pandemia do novo coronavírus, já que esta é uma das poucas certezas que muitos carregam atualmente. Mas, a pergunta que cabe-nos fazer neste momento é: Como será, então, esse mundo pós coronavírus?

A crise global provocada por esta pandemia apresenta-se como uma crise civilizatória e traz com ela a urgência de reflexões a respeito da necessidade de se reconstruir as estruturas econômicas, políticas e sociais atuais, de forma que possamos vislumbrar no horizonte um novo modelo de sociedade que dê conta de ser menos desigual e mais capaz de responder às demandas sociais que há muito tempo estão na ordem do dia. Mas, é possível que estas mudanças sejam feitas pelo atual sistema neoliberal?

O modelo neoliberal tal qual conhecemos já vem apresentando sinais de enorme desgaste há tempos, com destaque para a grande crise de 2008, onde trilhões de dólares foram gastos pelo governo americano e europeus em mega pacotes de socorro aos bancos com o objetivo de “salvar a economia”. Agora, com a atual crise causada pelo coronavirus, representantes do capitalismo global têm usado novamente a mesma narrativa sobre a importância do papel do Estado nas economias dos países.

É fato que durante o tempo que perdurar a atual crise, o Estado terá um papel fundamentalmente estratégico nas decisões econômicas, mas um assunto para o qual precisamos atentar é que em conjunturas atípicas como esta em que estamos vivendo, políticas de intervenção do estado, apesar de antiliberais em essência, tornam-se necessárias para a sobrevivência do próprio sistema liberal, já que possibilitam a criação de medidas como: linhas de crédito para que empresas sobrevivam à falta de capital de giro, taxas mais baixas de juros e pacotes de socorro bilionários para evitar a quebra dessas empresas. Mas, e depois que a crise passar?

Se analisarmos o cenário pós-Segunda Guerra Mundial, com a implementação do Plano Marshall nos EUA e a instauração do chamado Estado do Bem Estar Social na Europa, veremos em ambos os contextos a forte presença estatal na recuperação da economia. Mas, com o passar dos anos, as ideias e práticas liberais foram ditando novamente os rumos e o Estado foi gradativamente perdendo importância nesta seara. Tempos depois assistimos a chegada ao poder por Margareth Thatcher, na Europa, e Ronald Reagan, nos EUA, o que abriu campo para o surgimento do neoliberalismo, uma versão mais agressiva do liberalismo, marcado pela reafirmação do “Estado Mínimo”, pela política de privatização das empresas estatais, fim das políticas sociais e pela perda de direitos trabalhistas.

Atualmente, cresce no setor empresarial o discurso por um capitalismo mais atento às questões sociais. Como exemplo, recentemente a Business Roundtable — associação que reúne as maiores companhias dos Estados Unidos, lançou um manifesto assinado por empresas como JP Morgan, Amazon, Apple, Walmart, ExxonMobil, AT&T e Ford, onde afirma que o lucro não é seu propósito maior, é a primeira vez que algo assim é lançado por esta organização, ainda que não deixe muito perceptível os resultados práticos disto para a redução das desigualdades sociais. Além disso, palavras como: ecossistema, colaborativo, coworking, disruptivo, e até a figura do anjo-da-guarda dos novos empreendedores já estão na ordem do dia das empresas há alguns anos.

Isto significa que podemos esperar daqui para a frente um capitalismo humanizado? É esta a narrativa que vem sendo construída nos últimos tempos, mas cabe lembrar que a natureza primordial do capitalismo é o lucro e que toda e qualquer ideia de renovação terá que levar em consideração os limites que este modelo econômico carrega em si. Há solução para esta contradição? Veja o que diz o filósofo e teórico sul-coreano Byung-Chul Han, sobre o que ele considera ser a psicopolítica do capitalismo em sua versão neoliberal:

“A psicopolítica neoliberal é dominada pela positividade. Em vez de operar com ameaças, opera com estímulos positivos. Não emprega a ‘medicina amarga’, mas o ‘eu gosto’. Lisonjeia a alma em vez de sacudi-la e paralisá-la mediante choques. A seduz em vez de opor-se a ela. Toma a sua dianteira. Com muita atenção toma nota das ânsias, das necessidades e dos desejos (…). A psicopolítica neoliberal é uma política inteligente que busca agradar em vez de submeter.”

O que Han quer dizer com isso é que o neoliberalismo adota como estratégia uma narrativa midiática muito próxima da ideia de uma “sociedade do espetáculo” de Guy Debord ou do que Gilles Lipovetsky e Jean Serroy chamam de “capitalismo artístico”, uma realidade inventada, teatral, marcada por signos e mensagens que formam, através de uma ficção propagandista, uma subjetividade que acredita em corpos livres, sujeitos de si mesmos capazes de escrever seus próprios destinos e que vivem sob a égide de uma sociedade marcada por infinitas possibilidades de “ser”, quando na verdade estão sujeitos a um sistema cuja essência não mudou desde o surgimento do capitalismo industrial, mudando somente a forma. A engrenagem do consumo infinito é o que move o capitalismo.

Longe de mim querer com isso apresentar um cenário pessimista para o futuro, pelo contrário, acredito que é, mais do que nunca, tempo de reafirmarmos nosso compromisso com nossos ideários mais utópicos e fazermos deste momento um grande laboratório de profusão de ideias incríveis que apontem para novos futuros desejáveis. O importante é entendermos que a mudança não virá de uma força maior que dita os rumos da economia com sua eterna “mão invisível”, o protagonismo está na juventude, nas mulheres, no movimento negro, nas favelas, nos LGBTQIs e nos movimentos sociais articulados que estiverem sintonizados com o atual momento e que enxerguem suas lutas na perspectiva sistêmica de uma luta anticapitalista.

Que esta crise sirva como um chamado para a construção de uma nova economia global onde prevaleçam valores como a igualdade, a colaboração, o cuidado com o outro e a distribuição. Caminhando, desta forma, para algo bem diferente das bases sobre as quais o capitalismo foi construído: a acumulação de riquezas, o consumo desenfreado, o egoísmo, a destruição do meio ambiente, o racismo, o patriarcado e a LGBTQIfobia.

Um exemplo bastante interessante é o do encontro mundial para discutir as bases de uma nova economia global liderado pelo Papa Francisco, que teria acontecido em março deste ano não fosse a pandemia do coronavírus. A ideia é a de trabalhar em torno de três grandes eixos: o primeiro trata das perspectivas gerais de articulação de uma nova economia, pautada pela justiça social, ética e humanismo, o segundo traz à mesa as experiências concretas de economia solidária, criativa, sustentável ao redor do mundo, de forma que possam servir de inspiração e ganhar escala de replicação, e o terceiro fala sobre a urgência de que se promovam mudanças nos currículos das faculdades de economia, que hoje partem de uma concepção única voltada para uma lógica de competição, para uma nova orientação, agora humanista e integradora, que veja a economia de forma cíclica e não mais linear.

Bem, com este exemplo prático acima, concluo, de maneira propositalmente paradoxal, fazendo minhas as palavras de Milton Friedman, economista americano da Escola de Chicago e um dos grandes nomes do liberalismo mundial: “Somente uma crise – real ou percebida como real – produz mudança de fato. Quanto essa crise ocorre, as ações dependem de ideias que estão disponíveis no momento. Acredito que essa é a nossa função básica: desenvolver alternativas para as políticas existentes, manter essas alternativas prontas e disponíveis até que aquilo que antes parecia politicamente impossível se torna politicamente inevitável”.

Então, tirem suas utopias do armário.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum


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