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25 de fevereiro de 2018, 16h40

Intervenção militar no Rio: para além da pirotecnia de Temer

A intervenção é mais um passo em direção ao obscurantismo, ao reacionarismo, à criminalização dos pobres, pretos, favelados. Mais um golpe ao que resta de democracia no Brasil

Desde o fim da ditadura as Forças Armadas não assumiam protagonismo tão grande. E se os setores mais reacionários do Exército gostarem da brincadeira? – Fernando Frazão/Agência Brasil

Sim, o golpista foi ousado e partiu para a ofensiva. Temer mudou a agenda tirando a reforma da previdência da pauta – e evitando uma possível derrota.

Sim, a manobra devolve protagonismo ao governo mais impopular da história, reconstrói a aliança com a Globo, amarra as Forças Armadas à coalizão golpista e abre uma perspectiva para que Temer seja um ator importante nas eleições – alguns especulam que poderia até se colocar como candidato à reeleição.

Também é verdade que a intervenção militar tenta esvaziar o discurso bolsonarista, deslocando para o âmbito da centro-direita golpista o tema da segurança pública, preparando terreno para turbinar uma candidatura desse campo (seja Alckmin, Rodrigo Maia, Meirelles, Huck ou o próprio Temer).

Tudo isso é verdade.

PT, PCdoB e PSOL acertaram em votar contra a medida, sem cair na armadilha de aderir ao senso comum. É natural que em um primeiro momento a maioria da população apoie a intervenção em virtude do clima de terror criado pela Globo.  Mas já começamos a ver o que será a atuação cotidiana do Exército:  já circulam as imagens de soldados vasculhando mochilas de crianças ou fechando as passagens nas favelas, abordando os moradores individualmente, “fichando” um a um.

O campo progressista parece se dividir entre duas avaliações que podem nos levar a equívocos. De um lado, há os que disseminam um certo catastrofismo, classificando a intervenção como ensaio para uma nova etapa – militarizada – do golpe. De outro, existem os que minimizam a gravidade e impacto dessa iniciativa, caracterizando-a como mera manobra político-eleitoral de Temer.

Nem uma coisa nem outra. A jogada foi ousada e aprofunda sim o Estado de exceção. Testa limites e abre novos cenários. Mas, não levará necessariamente ao fechamento total do regime ou a um governo militarizado.

Entretanto, todavia, contudo também não foi mero ato de marketing.

Efeitos e consequências de médio prazo

Primeiro, vamos estabelecer um pressuposto: não há como a intervenção “dar certo”.

Objetivamente, o Exército não tem o que fazer em termos de segurança pública.

Não é a sua função, não tem meios para agir com eficiência nesse campo. As Forças Armadas têm como objetivo a defesa nacional. São forças de dissuasão e combate contra inimigos externos. O Exército é preparado para destruir forças estrangeiras, proteger fronteiras, ocupar territórios.

Colocar militares para abordar crianças em porta de escolas desmoraliza o Exército e aterroriza os moradores das favelas, é um símbolo muito forte da criminalização da pobreza. Mas, vamos pensar: de que forma um tanque de guerra estacionado na orla de Copacabana pode diminuir a ocorrência de crimes?

O que vai acontecer de imediato é a mudança de posição da Globo e da grande mídia, que começarão a vender uma sensação de tranquilidade, criando uma percepção positiva. Também deve ocorrer um “recolhimento” momentâneo do braço armado do tráfico que vai esperar a poeira baixar, atuando com mais discrição.

Então, por que essa ação é tão grave e pode gerar efeitos mais duradouros?

Trata-se da primeira intervenção em um governo estadual nesses moldes, com o protagonismo do Exército – que se responsabiliza por toda a política de segurança, controlando as polícias do Rio de Janeiro.

Abriu-se um precedente grande e perigoso. Se é possível intervir dessa forma no Rio de Janeiro, por que não chamar os militares para atuar em outros Estados? Ou, quem sabe, em outras áreas governamentais?

Introduziu-se no imaginário social a ideia de que as Forças Armadas são mais aptas para lidar com crises, são mais sérias e competentes e podem fazer gestão de políticas públicas melhor do que os “políticos corruptos” (que, todavia, foram eleitos pelo voto popular).

A intervenção militar reforça as posições da extrema-direita. Dá fôlego aos discursos autoritários, os da turma do: “bandido bom é bandido morto”. Tudo na contramão do que defendem os setores progressistas. Os movimentos de direitos humanos lutam há anos pela retirada do caráter militar das polícias e por uma reforma profunda no sistema.

No momento em que Exército assume a segurança pública retrocedemos brutalmente nesse debate.   Não só sai da agenda qualquer possibilidade de mudanças das PMs. Fica mais forte a ideia de que o modelo militarizado é a melhor alternativa para lidar com a questão da segurança.

Por último: não me parece inteligente subestimar as consequências de uma medida que coloca as Forças Armadas como parceiras não só das ações do governo golpista, mas também como gestoras do Estado.

Trata-se de arrastar o Exército para funções de governo e colocar os militares como corresponsáveis pelo sucesso ou fracasso das políticas de Temer e também como “sócios” do regime.

Desde o fim da ditadura as Forças Armadas não assumiam protagonismo tão grande. E se os setores mais reacionários do Exército gostarem da brincadeira? E se os saudosistas do regime militar se tornarem mais ousados, mais fortes  e mais ativos?

A intervenção é mais um passo em direção ao obscurantismo, ao reacionarismo, à criminalização dos pobres, pretos, favelados. Mais um golpe ao que resta de democracia no Brasil.

 


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