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22 de fevereiro de 2018, 10h43

Intervenção Militar no Rio: Temer vai para ofensiva política

A intervenção no Rio é a primeira vitória política de Temer em vários meses

Com Maykon Santos*

O governo Temer chegou ao poder juntando interesses da grande mídia, dos partidos de direita e do grande empresariado, somado a um ciclo de mobilizações anti-corrupção e anti-PT.

Chegou como um rolo compressor de direitos, aprovando várias reformas devido a ampla margem de apoio no parlamento e na mídia. Mesmo sendo as medidas aprovadas (em especial a Reforma Trabalhista e o Teto dos Gastos Públicos) impopulares.

A última barreira foi a Reforma da Previdência, que chegou numa conjuntura de ascenso do enfrentamento popular ao governo com várias greves, queda vertiginosa da popularidade do governo e denúncias de corrupção envolvendo o próprio Temer.

Esse conjunto de fatores quase derrubou Temer, que perdeu apoio nos partidos de direita, na mídia – Globo principalmente – e no grande empresariado.

Temer conseguiu se manter no poder. Mas não conseguiu aprovar a Reforma da Previdência. Como também pouco influencia as eleições presidenciais.

Era preciso corrigir sua rota.

E isso não ocorreria oficializando de vez a derrota na aprovação da Reforma da Previdência, marcada para essa semana e que não iria para a pauta.

Assim, Temer surpreendeu muitos quando na quinta passada anunciou Intervenção Federal na Segurança Pública do Rio de Janeiro.

Sem votos para Reforma da Previdência, mais uma derrota a caminho, impopular, com uma pauta como a Reforma travando outras, Temer deu uma carta final.

Pois bem.

5 dias após o decreto de Intervenção ter sido assinado, nada ocorreu nessa área.

Nenhum plano foi apresentado, nenhuma tropa federal para além das que estão no Rio foi enviada, nenhum comandante da PM foi substituído. Pelo contrário, o próprio interventor – General Eduardo Villas Bôas – disse primeiro que a situação no Rio não era tão ruim e depois pediu autorização para matar sem responsabilizar militares ao exigir garantias às Forças Armadas para não ocorrer uma nova Comissão da Verdade.

O que confirma que a Intervenção em si não era o foco principal de Temer.

Por outro lado, dos presidenciáveis: Alckmin aprovou a medida, Marina também, Ciro fez malabarismo dizendo que é contra e a favor ao mesmo tempo, Lula rompeu só hoje o silêncio, dizendo que é jogada de marketing, mas sem criticar a violação aos Direitos Humanos da medida e Bolsonaro se colocou contrário pela direita, dizendo que os militares precisariam de mais segurança, na linha do dito pelo General Villas Bôas. Como dito por aí, a Intervenção roubou o lugar de fala do Bolsonaro. Mesmo assim, no Congresso Bolsonaro e os filhos votaram a favor.

Somente Guilherme Boulos e Manuela D’Ávilla criticaram a Intervenção, enfatizando como a mesma é um atentado aos Direitos Humanos com graves consequências aos mais pobres e moradores de periferia.

Oras, o Rio já viu diversas ações das Forças Armadas e o resultado para os moradores de periferia é um só: criminalização da pobreza, sendo o extermínio da juventude negra a mais dolorosa e sangrenta face.

No Congresso, somente PT, PSOL e PCdoB votaram contra a medida.

A Rede de Marina e o PDT de Ciro votaram em ampla maioria a favor da Intervenção.

A explicação é simples.

A Intervenção, mesmo que não tenha mudado nada até agora e já tenha sido tentada várias vezes, tem forte apoio popular. Ainda que com um vago “alguma coisa tem que ser feita”.

E poucos tem a grandeza de se colocar contrário a uma medida popular.

Aqui está a primeira vitória política de Temer em vários meses.

Pela primeira vez no seu governo, ele toma uma medida que tem apoio popular e apoio de ampla maioria do Congresso, voltando à ofensiva no cenário político.

Não por menos, Temer não anunciou o plano da Intervenção. Mas já divulgou um pacote de 15 medidas que agradam o mercado e atacam o povo com destaque para: Independência do Banco Central, privatização da Eletrobras, desonerações em folha e um programa de recuperação de outras estatais (leia-se mais privatizações).

* Maykon Santos é professor de Ensino Fundamental em Santos e Cubatão e militante pelos Direitos Humanos.

 


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