O choque do início e do fim – Tchernóbil

Ler a ganhadora do Prêmio Nobel de literatura de 2015 era para ser a tarefa mais prazerosa possível. Era. Por Guilherme Dogo “Vozes de Tchernóbil” remexe, esmaga, emociona e toca todos os cantos da mente e da alma. A transformação de Svetlana Alexiévitch do horror em algo extremamente tocante é merecedora do prêmio, sem sombras […]

Ler a ganhadora do Prêmio Nobel de literatura de 2015 era para ser a tarefa mais prazerosa possível. Era.

Por Guilherme Dogo

“Vozes de Tchernóbil” remexe, esmaga, emociona e toca todos os cantos da mente e da alma. A transformação de Svetlana Alexiévitch do horror em algo extremamente tocante é merecedora do prêmio, sem sombras de dúvidas.

O livro não traz fatos históricos ou relata como o maior acidente nuclear da história da humanidade se deu. Pelo contrário, Svetlana Alexiévitch refuta totalmente essa ideia, dizendo (corretamente) que já existe outros materiais, seja livros, seja filmes, sobre o mesmo assunto. A autora busca o fato, então, pelos relatos chocantes dos camponeses, trabalhadores e sobreviventes do incidente. O livro é um apanhado de entrevista, todas transcritas, nada mais e nem nada a menos. Aí que está a beleza de “Vozes de Tchernóbil”.

Inclusive, Alexiévitch faz uma entrevista consigo mesma, uma vez que ela é natural da Bielorrússia e, portanto, sofreu as consequências daquela noite que, segundo ela mesma, mudou a forma que os humanos enxergam o mundo e se veem dentro dele. Para ela, Chernobyl é o acidente que marca a colisão entre o início e o fim do tempo, “como um cão que corre atrás do próprio rabo e, finalmente, o alcança”.

Logo nas primeiras páginas você já encara uma montanha de sentimentos terríveis ao ler o relato de Liudmila Ignátienko, esposa de um dos primeiros bombeiros a chegar no reator central. Esse é, de longe, um dos mais chocantes e tristes de todo livro. Não é para menos que é logo o primeiro. “Vozes de Tchernóbil” não é para todos: é para quem ama profundamente e amar é um sentimento pavoroso, forte demais, até para a radioatividade assassina, que aniquila tudo e avança sem ponderar.

Num outro, um camponês diz que os habitantes das regiões próximas demoraram a saber pelas autoridades o que havia se passado. Ele mesmo só soube que “algo estranho” acontecera pelas abelhas, que tinham desaparecido de sua casa. Ele diz: “as abelhas sabiam algo que os humanos não sabiam”. Um pescador disse também que nos dias seguintes da explosão, ele não conseguia achar uma minhoca sequer, porque elas afundavam metros no solo. Esses relatos são muito parecidos com o que se passou no Tsunami da Tailândia em 2004. Os habitantes da região contam que, dias antes do fenômeno, elefantes se dirigiram a regiões mais altas por, supostamente, sentirem vibrações anormais vindas do solo, o que levou os animais a se afastarem daquele ponto onde, horas depois, uma onda gigantesca destruiria tudo ao redor. Para citar o camponês, entrevistado por Alexiévitch, “nelas (nas abelhas) está a vida, se noto algo estranho, vou observá-las”.

“Vozes de Tchernóbil”, apesar da temática mortal, nos faz dá a sensação de pertencimento, de que nós, como seres humanos e habitantes do planeta, deixaremos nossas marcas por aqui, e Tchernóbil é uma marca de 100 mil, 200 mil anos. Muito mais profunda que a nossa própria existência. É um monumento de morte soterrado, uma pegada triste que a humanidade deixará nos solos do planeta. Alexiévitch escreveu uma obra prima, algo que transborda das páginas opacas dos livros: isso é para poucos.

 

Foto: Diana Markosian