Ivan Cosenza de Souza

cartas do pai

10 de abril de 2019, 22h38

Cartas do Pai: “80 tiros”

“Mimimi”, pai, é um termo inventado por pessoas que nunca passaram dificuldades. Pessoas de elite, brancas, hetero e moradoras de áreas nobres, pra debochar do sofrimento e das dificuldades que eles nunca tiveram

Foto: Reprodução

Rio de Janeiro, 10 de abril de 2019

Pai,

Tanta coisa aconteceu esta semana, mas a principal foi um fuzilamento aqui no Rio. Militares deram 80 tiros em um carro e mataram um pai de família!

A gente fica assustado, surpreso em ver esse tipo de coisa acontecendo nos dias de hoje! Mas só a gente, pois quem mora nos morros ou em bairros dos subúrbios do país, vê isso acontecendo desde sempre. Estão acostumados a ver fuzilamentos. Já viram amigos, parentes, conhecidos e vizinhos sendo fuzilados.

E todo esse tempo reclamavam de discriminação por sua cor de pele ou sua classe social. De um tempo pra cá ouvem que isso é “mimimi”.

“Mimimi”, pai, é um termo inventado por pessoas que nunca passaram dificuldades. Pessoas de elite, brancas, hetero e moradoras de áreas nobres, pra debochar do sofrimento e das dificuldades que eles nunca tiveram.

Esse pessoal, inclusive, não falou nada! Eles ficaram revoltados quando o presidente colocou vídeo pornográfico na internet, mas 80 tiros em inocente não incomodam muito, não. Nem a eles, nem ao presidente deles, nem ao ministro da Justiça, muito menos ao governador, que foi o grande incentivador da execução de suspeitos, com “um tirinho na cabeça”.

Enquanto a pena de morte para condenados continua proibida, a pena de morte para suspeitos tá valendo!

Um beijo do seu filho que não acha que sofrimento dos outros é “mimimi”.

Ivan

Veja também:  VÍDEO: Moradora da Cidade de Deus filma helicóptero da PM jogando granada na favela

Você pode fazer o jornalismo da Fórum ser cada vez melhor

A Fórum nunca foi tão lida como atualmente. Ao mesmo tempo nunca publicou tanto conteúdo original e trabalhou com tantos colaboradores e colunistas. Ou seja, nossos recordes mensais de audiência são frutos de um enorme esforço para fazer um jornalismo posicionado a favor dos direitos, da democracia e dos movimentos sociais, mas que não seja panfletário e de baixa qualidade. Prezamos nossa credibilidade. Mesmo com todo esse sucesso não estamos satisfeitos.

Queremos melhorar nossa qualidade editorial e alcançar cada vez mais gente. Para isso precisamos de um número maior de sócios, que é a forma que encontramos para bancar parte do nosso projeto. Sócios já recebem uma newsletter exclusiva todas as manhãs e em julho terão uma área exclusiva.

Fique sócio e faça parte desta caminhada para que ela se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie a Fórum