Feche a boca, general, o Brasil não é uma autocracia

João Vicente Goulart, em novo artigo, rebate ameaças do general Villas Bôas ao STF: “Sua palavra vem ao encontro de um governo autocrático, que traz no seu bojo os velhos cacoetes da prepotência, do pau de arara e da censura”

Chega de ameaças à democracia, o Brasil é maior de idade e não precisa de bravatas autoritárias advindas do General Villas Bôas ou de quem quer que seja, que defende governos ditatoriais, que submeteram nosso país a 21 anos de ditadura totalitária.

A citação de Rui Barbosa, feita pelo general, diz contextualmente:

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos do mal, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e ter vergonha de ser honesto”.

Fora de contexto, fora do respeito à memória dos que tombaram na luta pela liberdade e da democracia em nosso país.

Foto: Reprodução

Nulidade, general, é a aventura que vocês militares embarcaram na canoa Bolsonaro, um homem que vocês mesmos descartaram do Exército. Injustiça, general, é o que a ditadura de oito estrelas sem votos fez com o Brasil, mergulhando o país no submundo da tortura, da violação dos diretos humanos, dos assassinatos de pessoas sem julgamento, que estavam sob a proteção do Estado brasileiro; isso, sim, general, é desonra para um país e um povo.

Suas palavras explicitam um poder que não emana da democracia. A mesma democracia que vocês derrubaram em 1964 e berra hoje, sem dar-se conta do ocaso que vossa voz representa, bravateando contra o nosso Supremo Tribunal Federal, uma autoridade que vossa excelência já não possui, diante da vontade soberana de todo um povo, que clama por honestidade, paz e dever de respeito democrático.

Temos que combater a corrupção, sim, general. Inclusive, lembrando os casos, que, apesar do AI-5, nada democrático e censurador, ocorreram durante a ditadura brasileira.

Vamos lembrar, então, do “Escândalo Lutfalla” ou corrupção no governo Geisel, que envolveu setores militares e até hoje semiescondidos da opinião pública. A ponte Rio-Niterói, três vezes reavaliada sob a direção de Andreazza. O “Caso Delfin” ou corrupção no governo Figueiredo, que envolveram mais de 200 milhões de dólares à época, ou da construção da represa de Itaipu, antigo projeto Sete Quedas, que custou dez vezes mais do que fora orçada.

Vocês estão a defender um governo que acaba por ter suas políticas confundidas com as políticas pessoais do autocrata, das milícias que acabarão de corromper também nossas Forças Armadas, se não houver nenhum militar nacionalista, que seja sensível a esta triste personalização do poder que estamos vivendo.

Sua palavra vem ao encontro de um governo autocrático, que traz no seu bojo os velhos cacoetes da prepotência, do pau de arara e da censura.

Está na hora, general, de colocarmos o Brasil em primeiro lugar, devolver nossas riquezas ao povo brasileiro, olhar mais profundamente aos irmãos famintos, aos desempregados, aos sem esperança na Pátria, e deixarmos de vilipendiar ou ameaçar a nossa democracia.

A ameaça é a arma da prepotência, e está à debilidade dos que não percebem a inteligência coletiva.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.
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João Vicente Goulart

Filósofo, poeta e escritor. Autor dos livros “Entre Anjos e Demônios, poemas do exílio” e “Jango e eu: memórias de um exílio sem volta”, este foi finalista do prêmio de literatura Jabuti na categoria Biografia. Preside o Instituto João Goulart desde 2004. É colunista da Revista Fórum.

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Renato Rovai
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