João Vicente Goulart

18 de dezembro de 2019, 23h44

Memoriais em Brasília: política de conveniência

João Vicente Goulart, em sua coluna na Fórum, protesta contra a cassação do Memorial da Liberdade e Democracia Presidente João Goulart e a liberação do Memorial da Bíblia no mesmo local

O Memorial Presidente João Goulart foi a última obra de Oscar Niemeyer para o Eixo Monumental - Foto: Ana Nascimento/Agência Brasil

A pedra fundamental do Memorial da Bíblia, colocada hoje, dia 18 de dezembro de 2019, pelo governador Ibaneis, é sem dúvida um ato político. Um ato da mais “alta magnitude”, no momento em que no Brasil as igrejas neopentecostais defendem a ultradireita, com aquele discurso de família unida, armada, intransigente com outras religiões. Pregam a homofobia, apoiando e defendendo o totalitarismo, o fim dos direitos humanos e elegendo para o Congresso Nacional significativa parcela de bispos e pastores, vários deles acusados pelos crimes que dizem combater.

Alta magnitude, que nada! Temos, sim, uma manifestação oportunista: novas construções em Brasília? No Eixo Monumental, que dizem ser tombado para novos memoriais?  Como? Mudou a orientação do Plano Diretor?

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O leitor deve estar se perguntando, por que o autor deste artigo traz o assunto à tona?

Pois bem, para recordar aos cidadãos com memória, civilidade e que prezam a verdade, o Memorial da Liberdade e Democracia Presidente João Goulart, última obra de Oscar Niemeyer para o Eixo Monumental, foi cassado. Não se tratava de um desenho grotesco como se apresenta este, do Memorial da Bíblia, que seria construído também no Eixo Monumental, em um terreno já consolidado e com RGI, especificamente criado para abrigar memoriais, que tramitou durante sete anos em todas as instâncias administrativas.

Memorial Presidente João Goulart – Foto: Reprodução

E, pasmem: uma “cessão de uso” já outorgada pelo governo do Distrito Federal, e com o total apoio do Ministério Público do DF, foi anulada.

Foi com o argumento de que o Eixo Monumental é tombado, não tem parcelamento de solo e, por isso, o Memorial da Liberdade e Democracia Presidente João Goulart, não poderia ser construído no local.

Como acreditar em nossas instituições, em nossos Ministérios Públicos, na nossa Justiça, na atitude irresponsável dos governos, se ao caminhar ao longo das evidências, a revolta histórica rompe profundamente nossos direitos igualitários de cidadania. Como acreditar se este tipo de homenagens públicas, através de monumentos, bustos e memoriais se produzem ao lado sempre da busca de votos, de poder a qualquer preço, ou pior ainda, de atitudes déspotas ao bel prazer do momento político?

Nós que sofremos exílios, desaparecimentos forçados, torturas, perseguições de toda índole, lutando por um Brasil mais justo para todos, não podemos nos calar quando a injustiça bate à nossa porta. Nós que sabemos muito bem que este país não é só do homem branco, hétero, da classe média pregadora da meritocracia, do mercado que tudo decide; sim, nós não haveremos de desistir jamais, pois sabemos que a liberdade é filha da democracia e a justiça é filha de nossa história, que não se apagará diante de tiranias oportunistas.

Hoje, quero aqui perguntar aos “Urbanistas de Brasília”: onde residem seus princípios, onde estão seus gritos de protestos, onde residem suas convicções, ao não se posicionarem contra um novo memorial no Eixo Monumental?

Termino com um grande lema de Chico Buarque de Holanda:

“APESAR DE VOCÊ, AMANHÃ HÁ DE SER OUTRO DIA”

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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