Joselicio Junior

15 de fevereiro de 2018, 15h45

Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?

O carnaval, assim como qualquer outra expressão cultural, é um terreno em disputa, onde o poder econômico busca de todas as formas a mercantilização

Carnaval Rio 2018 - Desfile na Sapucaí - Paraíso do Tuiuti - Grupo Especial - Paulo Portilho | Riotur

Ê Calunga, ê! Ê Calunga!

Preto velho me contou, preto velho me contou

Onde mora a senhora liberdade

Não tem ferro nem feitor

O Brasil se constitui a partir de uma invasão portuguesa que exterminou os povos que habitavam este território, escravizou por mais 300 anos milhões de africanos e afro-brasileiros e no processo de abolição sua elite construiu um projeto que simplesmente excluiu essa população, o que traz consequências até os dias de hoje, com o trabalho escravo rural e nas confecções, o trabalho informal, o desmonte das leis trabalhista e a reforma da previdência, que tenta restituir a lei do sexagenário, provocados por um governo ilegítimo e golpista.

Imaginem transformar essa história em enredo, samba, fantasias e alegorias e desfilar por mais de uma hora, transmitido em cadeia nacional pela maior rede de televisão que tentou disfarçar, esconder umas partes, mas não teve como fugir da discussão provocada pela Escola de Samba Paraíso do Tuiuti de São Cristovão, no Rio.

Mesmo não sendo um enredo inédito, tendo em vista que diversas outras escolas já trouxeram esse debate na avenida, a pertinência, o momento histórico e a ousadia saltaram aos olhos. A força do samba, a energia da escola que se apresenta como um quilombo, traz a força da negritude que mesmo com todo o projeto excludente resiste.

O carnaval, assim como qualquer outra expressão cultural, é um terreno em disputa, onde o poder econômico busca de todas as formas a mercantilização, apropriação, as escolas de samba não estão isentas disso, mas trazem no seu DNA aquilo que Clóvis Moura chama de cultura de resistência, pois são expressões da organização da comunidade negra que conseguiu sobreviver à escravidão e trazer essa cultura até os dias de hoje.

A provocação da Tuiuti é certeira. Não é possível pensar no presente esquecendo do passado. Como afirma o Círculo Palmarino, “Um Povo Sem Memória, Não é um Povo Livre”, só é possível compreender o genocídio do povo negro, o encarceramento em massa, quem são os mais atingidos pelo trabalho informal, o trabalho insalubre, a baixa remuneração e o desemprego. A pergunta do enredo “Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?” é basicamente uma afirmação da negativa. Já são mais de 130 anos da abolição formal e os desafios ainda estão postos.

A cultura e suas manifestações são um espaço essencialmente em disputa, onde se constrói narrativas, se disputa valores e se desperta consciência, portanto é um espaço essencial para quem deseja transformar a sociedade que vivemos. Obrigado Tuiuti por sua provocação urgente e necessária, seu desfile é mais um tijolo na construção da nossa luta.

 

 

 

 


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