Joselicio Junior

02 de dezembro de 2019, 15h26

No Dia Nacional do Samba, não deixe o funk morrer

Joselicio Junior: “Mesmo recheado de contradições, de apropriações pela indústria cultural, de apropriação até mesmo do crime organizado, em alguma medida a transgressão de jovens através dos pancadões tem um caráter insurgente e antissistêmico”

Foto: Reprodução

Ainda bastante impactado pelas cenas chocantes e brutais da ação policial de repressão ao baile funk em Paraisópolis, na cidade de São Paulo, lembro que hoje é o Dia Nacional do Samba e, inevitavelmente, começo a traçar paralelos entre o samba e o funk.

O samba, que hoje é exaltado como um símbolo de nossa identidade nacional, tem suas origens nas senzalas, nos quilombos, na cultura de resistência produzida pelo povo negro e não por acaso, por muitos anos, reprimido duramente pelas forças repressoras do Estado. Basta pesquisar o depoimento de sambistas mais velhos, para ouvir relatos da repressão policial em rodas de samba e desfiles. Os cordões carnavalescos paulistas do início do século XX também eram reprimidos pelo Estado, assim como os estereótipos do malandro, do vadio, sempre foram usados como pretextos para a ação violenta.

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Nos anos 80, os jovens que se reuniam na região central para dar os primeiros passos da cultura hip hop no Brasil também eram reprimidos, sem contar os inúmeros eventos que foram impedidos ou reprimidos nas quebradas.

O funk tem a mesma origem do samba, suas raízes estão no batuque, na batida do maculelê, “é som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado”, como descrevem Amilcka e Chocolate na música “Som de Preto”. Um ritmo dançante, envolvente e que se tornou uma grande expressão cultural da juventude e se ramificou em diversas vertentes, que vão da ostentação, proibidão, melody, ousado, vida real entre vários outros.

Há várias críticas ao funk por conteúdos sexistas, machistas, objetificação das mulheres, ostentação ao crime, ostentação ao consumismo. Críticas que também cabem a outros estilos musicais. Porém, ganham mais potência em relação funk, o que gera uma criminalização da cultura. Como qualquer outra expressão cultural, o funk é fruto do seu tempo e externaliza também as contradições do seu tempo.

O fato é que nos últimos anos o funk, particularmente nas periferias da cidade São Paulo e região metropolitana, tem arrastado multidões de jovens. Não quero aqui minimizar os transtornos que isso acarreta nas comunidades, o som superalto por toda a madrugada, interdição de vias, o uso abusivo de drogas, entre outros. Porém, não acredito que será possível construir saídas e mediações na porrada, a prova disso são os nove mortos em Paraisópolis.

O pancadão, em alguma medida, é a explosão de uma juventude duramente reprimida em seu cotidiano, uma válvula de escape, uma busca por pertencimento. Portanto, a repressão não será capaz de acabar com essa cultura, pelo contrário, alimenta um espírito de corpo.

É fundamental olhar para esse episódio como uma expressão do que é historicamente o Estado brasileiro com o seu papel de manutenção de privilégios de poucos, em detrimento do controle de determinados corpos e territórios. Portanto, o mesmo Estado que sucateia a educação e a saúde pública, que encarece o transporte, que não amplia os equipamentos de cultura e lazer, que não abre caminhos para geração de emprego é supereficiente para reprimir, encarcerar e exterminar, particularmente os corpos negros. O AI-5, tão exaltado por políticos de plantão, nunca deixou de vigorar nas quebradas.

A ação em Paraisópolis não foi um desvio de conduta de determinados policiais despreparados, muito pelo contrário. É uma ação deliberada, orquestrada, que faz parte da engenharia do poder, tanto que essas repressões são cotidianas e ganham um grau de violência maior em Paraisópolis, justamente por ser uma comunidade colada a um bairro nobre como o Morumbi. Portanto, é necessário um controle maior para garantir a tranquilidade dos cidadãos de bem.

Vale salientar que onde se instala a repressão também brota a resistência. Mesmo recheado de contradições, de apropriações pela indústria cultural, de apropriação até mesmo do crime organizado, em alguma medida a transgressão de jovens através dos pancadões tem um caráter insurgente e antissistêmico, mesmo que pontual, típico de outros movimentos jovens em outros contextos históricos, ou mesmo de expressões culturais negras como a capoeira, por exemplo.

Que o Dia Nacional do Samba também nos sirva de reflexão. Se o samba não pode morrer, como exaltou Aloisio Silva e Edson Conceição em 1975, através da linda interpretação de Alcione, que o hip hop, o funk e tantas outras expressões culturais de resistência do nosso povo também permaneçam vivas, mas sobretudo que nosso povo, nossa juventude permaneça viva e tenha direito a um futuro.

Minha solidariedade aos familiares das vítimas, aos feridos fisicamente e psicologicamente. Força à toda comunidade de Paraisópolis!

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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