Juca Ferreira

28 de maio de 2020, 15h06

Às margens do rubicão, por Juca Ferreira

Hoje, o protagonismo do enfrentamento com a extrema direita é da direita liberal, de parte da grande mídia e do STF. A esquerda e a centro-esquerda estão quase ausentes dessa batalha

Foto: Instagram

A barra está muito pesada, ou é impressão minha? I

O que está acontecendo, neste momento, no Brasil, é muito mais significativo para toda a sociedade do que uma mera guerra de gangues.

O destino do país está sendo disputado. Está ficando claro que essa batalha que está sendo travada definirá o nosso futuro político nos próximos anos.

A história do Brasil está às margens do rubicão, numa analogia ao momento em que Júlio César violou as leis da República Romana. Os próximos passos podem definir o destino do nosso país.

A depender do resultado dessa disputa, ou irá prevalecer um mínimo de Estado de direito ou as fake news se afirmarão como norma e padrão, as milícias armadas passarão a coagir a todos, sem nenhum pudor, e assistiremos, em um grau ainda maior, o atropelo e a perda de significado das instituições do Estado. E, conhecendo a intenção dos bolsonaristas, certamente teremos prisões sem motivação legal, tortura e assassinatos políticos seletivos, entre outras perversidades.

Se vencer a extrema direita, vamos para uma situação semelhante à ditadura. A uma ditadura com características fascistas, sustentada pelas milícias, parte dos evangélicos, as Forças Armadas e uma parcela minoritária da sociedade.

Se eles forem contidos, vai ser uma vitória importante da sociedade brasileira, porque pode abrir um período de transição para uma retomada do Estado de Direito e do processo democrático.

Está se desenhando algo, ainda sem muita definição, ainda não completamente explicitado, mas com um significado político que ninguém interessado no destino do país pode desprezar.

Hoje, o protagonismo desse enfrentamento com a extrema direita está sendo da direita liberal, de parte da grande mídia e do STF, que, diga-se de passagem, se omitiram, participaram ou deram cobertura ao processo de ruptura com o Estado de Direito, e apoiaram o impeachment da Dilma.

Se a extrema direita for contida ou derrotada, ainda assim, teremos uma agenda muito conservadora. Vão querer combinar democracia formal com uma agenda econômica ultra reacionária e de corte neoliberal, com tutela da sociedade a partir da lei e da ordem. É o projeto do PSDB revivido: democracia formal, pinceladas de civilização e contemporaneidade e muito neoliberalismo, pouca soberania nacional e ponto final. Que se lixe o andar de baixo da sociedade!

Para quem quer a retomada de um processo democrático, se a extrema direita for contida, muita energia hoje reprimida e ausente dessa disputa virá fazer parte deste enfrentamento, dando densidade social e novas cores ao processo político e certamente irá explicitar demandas e necessidades que os liberais não são capazes de defender, muito menos de resolver.

Vontade na política é uma premissa importante, mas não é tudo. O que esses liberais pensam e querem é importante, mas não é toda a realidade.

A esquerda e a centro-esquerda estão quase que ausentes dessa batalha, o que torna difícil imaginar e ver esse conflito como mais do que uma disputa dentro do campo da direita.

A política é “a ciência do real” e é preciso compreender o tempo inteiro o que está se movendo, a natureza das contradições, os interesses e quem está no jogo.

As coisas estão no mundo e é preciso apreendê-las.

O campo democrático vai continuar se comportando como expectador? Ou essas batalhas que estão se dando são nossas também?

Para todos que querem restabelecer a democracia, o dever de casa começa deixando de ser mero expectador.

Meu otimismo advém dessa minha expectativa da emergência de novas demandas e velhas necessidades encontrando seus porta-vozes.

E da crença de que o Brasil e o povo brasileiro são maiores do que esse projeto medíocre da extrema direita.


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