Juca Ferreira

20 de abril de 2020, 17h10

Brasil, mostra sua cara!, por Juca Ferreira

A intenção explícita de Bolsonaro, ao participar de uma manifestação favorável a um golpe militar e um novo AI -5, com fechamento do Congresso e do STF, é radicalizar a crise política

Jair Bolsonaro - Foto: Reprodução

Ficou bem claro, neste domingo, que Bolsonaro está buscando o confronto e a radicalização como o único caminho para se salvar politicamente e tentar esconder o fracasso do seu governo.

A intenção explícita, ao participar de uma manifestação favorável a um golpe militar e um novo AI -5, com fechamento do Congresso e do STF, é radicalizar a crise política e se confrontar com todo o sistema político e instituições da República para reverter a sua atual tendência de perda de significado político e de isolamento.

E, assim, por um caminho transverso, Bolsonaro espera ganhar legitimidade para exercer o mando do país de forma autoritária. Sonha com uma nova ditadura.

Bolsonaro chegou a uma situação de perda das condições políticas mínimas para governar. E, com essa estratégia de tudo ou nada, vai dinamitando as pontes e criando uma situação de não retorno. Já não se vislumbra a possibilidade de vir a construir um ambiente de diálogo ou de vir a estabelecer um mínimo de entendimento com outras forças políticas e com representantes significativos da sociedade.

Essa sua resposta à crise era de se esperar. A extrema-direita não costuma recuar, nem negociar. A tendência universal é quase sempre, como um reflexo, reagir feito rinoceronte que baixa a cabeça e corre em direção ao alvo para destrui-lo com a força bruta.

Bolsonaro tem apoio na sociedade, o que faz da sua remoção antes de 2022 uma operação de risco e ao, mesmo tempo, a sua permanência no governo é uma ameaça ainda maior para o país.

A existência dessa força social residual, que se identifica com o projeto autoritário da extrema-direita e rejeita a democracia está satisfeita com a desigualdade social. Na expectativa de uma saída autoritária para o país, esse grupo acaba produzindo a degradação cotidiana dos processos da democracia representativa. É como uma energia cáustica a corroer o tempo inteiro a convivência entre os que pensam diferente, inviabilizando as normas e ritos dos regimes democráticos.

A intolerância política e o ódio sincero dos que não conseguem conviver com outros pontos de vista e negociar com diferentes projetos políticos são incompatíveis com a democracia.

Essa base social do autoritarismo alimenta a crise política e se mostra inabalável no seu desprezo pela vida democrática. É preciso que seja dito e considerado por todos os demais brasileiros e brasileiras que esse projeto é incompatível com a democracia e, por isso, é necessário isolá-lo e reduzi-lo ao mínimo possível.

A maior dificuldade que teremos, em curto prazo, é o fato de que a cultura democrática na nossa sociedade é muito frágil, superficial, pouco enraizada. Não é por acaso que a democracia nunca se estabilizou no Brasil.

O ódio é o sentimento mais representativo dessa parcela da sociedade. É o que os une. O ódio e o medo da vida e das liberdades que a humanidade conquistou em sua trajetória. Esse é o subtexto desse projeto autoritário.

Do impasse político, emerge a falta de direção para o país. Essa crise está se tornando, em si, um obstáculo de difícil solução para enfrentarmos os grandes problemas que afligem nossa sociedade.

Para o bem do Brasil, a inércia precisa ser rompida. Mesmo com o aprofundamento da crise política e com o desgaste do governo, com a pandemia entrando em sua fase mais aguda e, ainda, para piorar, com o agravamento da crise econômica e a chegada de nova recessão, com tudo isso, algum apoio ao governo e a Bolsonaro tende a permanecer.

Tudo indica que, sem uma ação política eficiente e incisiva, a tendência é esse apoio ir caindo gota a gota, homeopaticamente, lento o suficiente para manter a crise e o impasse atual durante muito tempo. Muito mais do que o país pode suportar.

A primeira reação a esta crise dentro das hostes governamentais foi montar um governo paralelo, quase secreto, com generais dentro do próprio Palácio do Planalto, enquanto a base de apoio está sendo mobilizada por Bolsonaro, seus filhos, e pela extrema-direita organizada para o confronto.

Do lado da sociedade e da oposição, começam os sinais de disposição de livrar o país das loucuras de Bolsonaro e de seu governo destrutivo. Está surgindo a possibilidade de construção de um cenário político que encontre uma saída para o atual impasse.

Na prática, já está se constituindo uma grande frente política no Brasil, que vai da centro-direita até a esquerda.

Esse conjunto diverso terá que desenvolver uma inteligência comum nos jogadores de xadrez para isolar a extrema-direita, costurar essa frente, definir e pactuar claramente os passos a serem dados, manter a sociedade informada, mobilizada, consciente e participando de todas as etapas dessa difícil empreitada democrática.

Ainda temos algumas incógnitas importantes: qual será a posição das Forças Armadas? Como as elites economicamente mais poderosas irão se comportar diante do agravamento da crise? Retirarão o apoio ou continuarão dando sustentação ao projeto neoliberal-autoritário? E os poderosos aliados internacionais de Bolsonaro e do seu governo, o que farão?

Tudo isso tende a ficar mais claro nos próximos meses, com a evolução da conjuntura e o desenrolar dos fatos. A resultante dessa crise é de difícil previsão porque será fruto de muitas variáveis. Para o futuro do Brasil e para a vida do povo brasileiro é fundamental e decisiva a escolha pela retomada da plenitude democrática do país.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum