Juca Ferreira

10 de março de 2020, 11h47

Curitiba, Porto Alegre e as eleições municipais

“Governarei Buenos Aires como uma soma de Curitiba com Porto Alegre”. Veja o que a frase lida num muro na Argentina, há 30 anos, significou para Juca Ferreira

Foto: Ederson Nunes/CMPA

Faz uns trinta anos, eu estava em Buenos Aires, me dirigindo ao parlamento, onde participaria de um encontro internacional, quando, já perto do destino, me sentei em um café para esperar a hora de início do evento. Depois de pedir um croissant e um cortado, vi no muro defronte uma pichação intrigante: “Governarei Buenos Aires como uma soma de Curitiba com Porto Alegre”.

Ao encontrar as pessoas com quem me reuniria, logo perguntei o que significava aquela frase e quem era o seu autor. Era de um candidato de esquerda em campanha para governar Buenos Aires. Se não me engano, o primeiro político de esquerda eleito para dirigir a cidade depois da tenebrosa ditadura militar argentina.

Meus interlocutores explicaram que eles, os argentinos, estavam acompanhando com interesse as inovações experimentadas naquelas duas capitais brasileiras. Curitiba, com Jaime Lerner, executando um planejamento urbano com muita ousadia, capaz de remodelar a urbis e suas dinâmicas, num momento em que o mundo ainda estava descobrindo a questão ambiental. A partir de uma visão contemporânea sobre a vida e sobre as cidades, utilizando conceitos e técnicas urbanísticas modernos, os planejadores sob o comando de Lerner estavam revolucionando as políticas de mobilidade urbana, a abordagem de áreas verdes e parques, criando dinâmicas e serviços capazes de modificar a vida dos bairros e melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Já Porto Alegre, decidiu aprofundar os fundamentos da democracia e da participação popular.  A negociação dos diversos interesses setoriais realizada à luz do dia e sobre a mesa era a legitimação da governança e de suas prioridades pela presença e participação da cidadania em todas as fases: no planejamento, na definição dessas prioridades e na avaliação do que foi feito. O orçamento participativo encantava a todos ao apontar um caminho democrático na administração dos recursos públicos, que mirava o fortalecimento da cidadania e da vida coletiva.

Vinda de ditaduras militares sangrentas e antipopulares, a América Latina encarava o orçamento participativo como algo que vitalizava a experiência democrática para muito além do voto. O PT do Rio Grande do Sul brilhava, dava rumo e modernizava toda a esquerda do Brasil e, como se viu naquela pichação em Buenos Aires, com repercussão além fronteiras.

Aquelas foram duas revoluções de naturezas distintas que, na prática, não dialogavam entre si, mas vistas de hoje, despontam como marcas importantes da redemocratização do nosso país no âmbito da gestão de cidades.

Depois de muito refletir, saí da capital argentina convencido de que era de fato necessário integrar aquelas duas vertentes: a participação da sociedade na construção e na execução das políticas públicas, complementando e vitalizando a democracia representativa, como em Porto Alegre e, por outro lado, incorporar a experiência de Curitiba, que apostou na base técnica do planejamento urbano para realizar as mudanças consideradas necessárias. São dois vetores que integrados podem dar consistência e solidez ao poder público municipal.

A inteligência da frase pichada foi ter juntado, talvez pela primeira vez, aquelas duas gestões inovadoras em uma só intenção política. Visto dessa maneira sinérgica, integrando uma experiência a partir de um governo de esquerda, com outra experiência baseada em parâmetros técnicos de um governo que se acreditava não ser nem de direita nem de esquerda, era possível ver ali, naquela parede, uma narrativa mais generosa e mais atenta ao que estava acontecendo nessa parte do mundo.

Não é intenção desse artigo fazer um balanço dos trinta anos que nos separam daquele momento, nem entender porque já não se fala dessas experiências ou, tampouco, indagar porque, em geral, houve um rebaixamento do padrão da gestão urbana. Nem o PT fala mais do jeito petista de governar, nem outros campos políticos reivindicam a experiência de Curitiba. Esse debate encolheu e hoje está restrito a universidades.

É como se as cidades e sua gestão tivessem caído em um pragmatismo e uma falta de grandeza que teriam transformado o debate em algo ocioso. Os partidos políticos hoje se preparam para as eleições baseados no marketing, criando narrativas e ilusões orientadas por pesquisas de demandas e de preocupações do eleitorado.

Com raras e honrosas exceções, como no governo de Fernando Haddad na cidade de São Paulo, a gestão das nossas cidades perdeu muita densidade nas últimas décadas. As prefeituras viraram um lugar para projetar políticos interessados em galgar outros cargos e as cidades ficaram à mercê de uma gestão fragmentada, organizada em projetos isolados, quase sempre mirabolantes ou de fachada. As urbes foram sendo engolidas pelas dinâmicas econômicas e pelas demandas sociais urgentes. E o mais devastador: as populações das grandes cidades se tornaram prisioneiras da mediocridade e da ignorância predominantes entre os operadores da política e dos partidos.

O tempo revelou que essa ignorância e mediocridade não são inocentes. Quase sempre, são expressão do controle que setores empresariais exercem sobre as cidades. O poder público perdeu força política e grandeza. Hoje, quase todas as cidades brasileiras vivem sob a égide da especulação imobiliária, dos interesses das empresas de transporte urbano e do setor de lixo. Raramente escapam disso.

As câmaras de vereadores também perderam muito da capacidade de gerar pactos para enfrentar os graves e complexos problemas urbanos. Os cidadãos são obrigados a viver sem nenhuma perspectiva de solução.

Está na hora de retomarmos o planejamento, a participação social e a política, vertentes do debate produtivo e da construção de cidades mais humanas, democráticas e sustentáveis.


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