Errar é humano, insistir no erro é Bolsonaro

Interessa ao governo transferir para a quarentena a responsabilidade pelo fracasso da sua política econômica neoliberal

A experiência mundial com a atual pandemia revela que os países e cidades que estão com números alarmantes de infectados e de mortos pelo coronavírus são exatamente os lugares onde os governantes subestimaram os impactos da pandemia e não quiseram tomar as medidas indicadas pela Organização Mundial de Saúde, pelos médicos, infectologistas e cientistas, sob a alegação de que iriam prejudicar a economia dos seus países e cidades.

O número de contaminados e mortos nesses lugares cresceu numa proporção bem superior do que nos países e cidades que seguiram as orientações das organizações médicas. Essa irresponsabilidade trouxe impactos desnecessários sobre a vida e a saúde das pessoas e paradoxalmente, teve consequências negativas que poderiam ter sido evitadas sobre todas as dimensões da sociedade, inclusive sobre a economia.

Essa ideia de que não pode parar e por isso deixaram de tomar as medidas necessárias para conter a pandemia, como a quarentena geral, o isolamento e confinamento em casa, se mostrou um erro e tem representado um verdadeiro desastre para esses países e essas cidades.

Estamos vivendo, neste momento, no Brasil uma disputa em torno de como enfrentar essa pandemia e o coronavírus. De um lado, Bolsonaro tentando passar a ideia de que se trata do surto de uma gripezinha e de outro as ciências médicas e a essa altura, a experiência mundial de enfrentamento dessa pandemia.

Mesmo tendo do lado dos que rejeitam sistematicamente a ciência – ao ponto de acreditarem que a terra é plana – argumentos rasos e sem nenhuma inteligência, esse debate vem envolvendo e mobilizando valores que fundamentam o humanismo, e que representam o respeito à vida e aos direitos humanos de todos.

Projetos distintos de nação estão se enfrentando nesse momento, apesar de que, aparentemente, estamos só discutindo se devemos ficar em casa ou tocar a vida como se não houvesse amanhã nem uma pandemia hoje.

Há um enfrentamento sobre prioridades distintas e lógicas antagônicas no enfrentamento da pandemia, mas ninguém se engane, esse debate é revelador de questões que envolvem visões de mundo antagônicas e compreensões políticas distintas.

Mesmo que não esteja muito claro para muitos, na verdade se trata mesmo é do nosso futuro como sociedade.

E, por isso, afirmamos que essa questão nos remete a um antagonismo e a um confronto da vida com a morte. Enfrentamento entre a necropolítica e o humanismo comprometido com a vida. A usura e a ganância acima de tudo de um lado, o amor à vida, do outro.

Financiando campanhas de publicidade, mobilizando os zumbis políticos que rondam o Brasil e que estão sempre dispostos a fazer o trabalho sujo, como apoiar essa proposta criminosa. Grandes empresários e o mercado financeiro estão por trás dessa posição, pressionando seus operadores políticos para suspenderem a quarentena e o isolamento. Estão pressionando governadores e prefeitos, o Congresso etc…

Essa posição de retomar imediatamente a “normalidade” das atividades econômicas, ignorando a Covid-19 e pondo fim a quarentena é bem vista também por muitos micros, pequenos e médios empresários, cujos negócios estão sendo afetados pela crise sanitária e pela pandemia. 

Sem muito discernimento acerca do momento econômico e político, acabam culpando o confinamento geral pelos prejuízos e pela crise econômica.

Bolsonaro é soldado desses irresponsáveis e usa a presidência para tentar dividir o país e mobilizar um exército de idiotas para irem para as ruas para dar a impressão de que é o povo brasileiro que está a favor dessa política suicida.

Já os governadores e prefeitos estão no caminho certo, ao dar prioridade às medidas para garantir a saúde e a vida das pessoas e seguirem as orientações da Organização Mundial da Saúde, dos médicos e infectologistas.

 O que está por trás desse conflito e o que está em jogo é simples.

Por um lado, a lógica da necropolítica, tipo “que morram dezenas de milhares”, mas a economia não pode ser afetada. Leia-se, nossos lucros são mais importantes do que a vida.

E do outro lado, os que defendem que a vida humana é o bem e a riqueza mais importante, mais valiosa do que tudo mais e propõem combinar salvar vidas com a redução dos impactos sobre a economia. Ninguém desconhece os impactos sobre a economia.

Muitos dos que hoje estão favoráveis ao confinamento geral, vacilarão diante dessas pressões, e pode vir a parecer “razoável” para alguns deixar morrer dezenas de milhares de pessoas, principalmente se forem os mais velhos.

Essa é a questão política central no momento. Vida e morte, duas lógicas se confrontando.

Claro que o Estado (nos seus três níveis) terá que injetar recursos para evitar uma crise econômica de grandes proporções. Não interessa a ninguém agravar ainda mais a crise econômica que assola o país.

Mas, interessa ao governo e aos que vêm apoiando as políticas neoliberais e o receituário de Guedes, transferir para a quarentena a responsabilidade pelo fracasso dessa política econômica neoliberal do governo. Bolsonaro está tentando emplacar essa ideia de que a crise econômica que se avizinha será responsabilidade da quarentena e do coronavírus.

Claro que a pandemia e o enfrentamento ao vírus terá um custo e produzirá impactos e com certeza aprofundará nossas dificuldades econômicas.

A pandemia chega ao país em um momento que estamos entrando em uma recessão econômica e não temos uma estratégia para enfrentá-la. Os que deram o golpe na presidenta Dilma fracassaram. O Brasil hoje é só mais um lugar onde o neoliberalismo não deu certo.

O caminho parece ser combinar a proteção à vida e à saúde de todos os brasileiros e brasileiras, corrigir os rumos da nossa economia, complementando com medidas emergenciais imediatas, tipo injetar recursos e proteger e apoiar economicamente os mais vulneráveis. 

Durante uns dois ou três meses, o tempo da pandemia, vai ser necessário proteger a vida e a saúde de todos os brasileiros e brasileiras e por outro lado buscar minorar a crise econômica.

A irresponsabilidade expressa na consigna de “não podemos parar,” a essa altura não é um erro, é um crime deliberado.

Os exemplos da Itália, particularmente de Milão, da Espanha, os EEUU e outros, que de início não quiseram reconhecer a gravidade da pandemia e saíram com essa visão de que “não podemos parar” e se atrasaram nas medidas necessárias para se precaver e enfrentar a pandemia, hoje pagam um preço muito alto em vidas humanas e na própria economia.

O erro de Bolsonaro não é uma loucura. É um crime deliberado.

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Juca Ferreira

Sociólogo, foi ministro da Cultura e é ex-secretário de Cultura de Belo Horizonte