Juca Ferreira

25 de março de 2020, 13h48

O abismo é logo ali, por Juca Ferreira

Se a fala de Bolsonaro ontem a noite serviu para alguma coisa, foi para nos tirar da inércia diante do abismo que se aproxima e do perigo que ele mesmo representa à frente do país

Jair Bolsonaro - Foto: Isac Nóbrega/PR

O país acordou estarrecido e perplexo, impactado pelo pronunciamento de Jair Bolsonaro, feito em cadeia nacional ontem à noite. Mesmo entre os que até ontem o apoiavam, muitos estão em estado de choque.

O nível de insanidade e da falta de preparo para exercer o cargo de presidente da República ficou manifesto nas propostas e nos comentários. Todo o pronunciamento indica uma atitude criminosa.

O teor da fala chama a atenção pela absoluta irresponsabilidade, mas não me parece que é só isso que merece a nossa atenção.

Existe ali, como fio condutor da fala de Bolsonaro, uma estratégia fria, algo pensado, consciente. E, que não é só dele. E é a própria essência do projeto neoliberal e autoritário.

A fala contém e defende, sem nenhum pudor, uma opção por uma outra prioridade que não a vida e a saúde das pessoas. Mesmo às custas da morte de dezenas de milhares de pessoas, o subtexto informa que a prioridade dele e dos que o apoiam é a economia.

Que morram muitos brasileiros e brasileiras, o importante é que a atividade econômica e o lucro das empresas não sejam afetados.

Alguns empresários ligados ao ainda presidente já tinham se adiantado ao pronunciamento criminoso de Bolsonaro e andaram, desde o final da semana passada, pregando que era “melhor morrer umas sete mil pessoas do que criar com o isolamento e a quarentena as condições para uma crise econômica”. 

Este pronunciamento de Bolsonaro mostra para todo o país que o projeto político que ele representa e seu despreparo e má fé vem tornando a vida de todos cada dia mais difícil. E revela o quão perigosa é para toda a sociedade a posição de ignorar a leviandade, a incompetência e os desmandos com que o Brasil está sendo conduzido.

A verdade é que Bolsonaro e os que o apoiam estão levando o país inteiro para a beira do abismo.

O povo brasileiro vai ter que reavaliar, porque as coisas estão se precipitando com uma velocidade impressionante e esse governo praticamente acabou depois do ofensivo pronunciamento de ontem. Foi um ponto final.

O “Fora, Bolsonaro!” pode deixar de ser uma proposta voluntarista e  injustificada em muito pouco tempo. Isso se já não estiver na ordem do dia para a maioria da sociedade brasileira. É preciso avaliar se de fato não é o caminho para que possamos, como nação, enfrentar os dias difíceis que estão se avizinhando.

Motivos legais para o afastamento não faltam.

O que falta é legitimidade para esse governo continuar. 

A evolução da atual situação pode ser muito perigosa para todo o país, fragilizado e confuso como estamos.

O custo para todos os brasileiros e brasileiras, da sua permanência à frente do país até 2022, será muito alto.

Não existe vácuo na política. Estamos caminhando para uma situação bastante pantanosa.

Estamos com três crises de naturezas diferentes e que estão se amalgamando. Em breve vão interagir fortemente, gerando assim uma situação insustentável.

A crise sanitária produzida pelo coronavírus é gravíssima, não só aqui, como em todo o mundo e atingirá seu pico no Brasil em pouco tempo.

Bolsonaro em sua fala delirante, irresponsável e criminosa voltou a chamar a Covid-19 de uma “gripezinha”.

A Organização Mundial da Saúde, médicos, infectologistas, uníssonos, estão dizendo que em mais ou menos um mês estaremos enfrentando uma situação muito mais grave em proporções e amplitude. Isso deverá colapsar o sistema de saúde em breve. É preciso adiar, ao máximo possível, a contaminação de pessoas para reduzir as internações.

Todos os cientistas e técnicos da área da saúde afirmam que só através do confinamento e do isolamento podemos reduzir as dimensões da crise sanitária e minorar seus impactos.

A crise econômica, revelando a falência das políticas neoliberais, como aconteceu em outros países, já está beirando a recessão e inevitavelmente se agravará nos próximos meses, por falta de políticas eficazes, por moto contínuo e empurrada pela crise sanitária.

E, a crise política, que está entrando numa fase aguda, com a perda de legitimidade do presidente da República e do seu governo. Não será surpresa se Bolsonaro e os que o apoiam tentarem caminhar na direção de uma nova ruptura institucional. Mas tudo indica que não terão apoio popular significativo, nem político e nem internacional.

Com tranquilidade e responsabilidade, considerando a gravidade do momento, é hora das nossas instituições, partidos políticos, lideranças da sociedade e todo o povo brasileiro reconhecer que estamos caminhando para uma situação insustentável e que a conjuntura está se deteriorando rapidamente.

Já estamos vivendo uma situação em que é possível visualizar o que se chama de tempestade perfeita, com essas três crises de naturezas distintas interagindo entre si e atingindo níveis de radicalidade que não foram vistos até agora, com sérios impactos sobre as pessoas e sobre todas as dimensões da sociedade. 

Não dá mais para levar o barco como se nada grave estivesse acontecendo. Não dá para continuar fazendo vista grossa. São, literalmente, milhões de vidas e o destino do país que estão em jogo.

Se a fala de Bolsonaro ontem a noite serviu para alguma coisa, foi para nos tirar da inércia diante do abismo que se aproxima e do perigo que ele mesmo representa à frente do país.


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