Juca Ferreira

24 de março de 2020, 09h07

Quarentena Ativa, por Juca Ferreira

Muito pode ser feito sem sair de casa e é melhor ficar ligado, conectado, porque a gravidade da situação demanda de todos algum nível de participação

Foto: Reprodução

A Organização Mundial da Saúde e toda a área médica recomenda o isolamento físico, ficar em casa como principal medida para evitar o contágio e a transmissão do vírus através do contato.

Mas a vida continua e quarentena não é sinônimo de passividade, bobeira ou alienação.

Muito pode ser feito sem sair de casa e é melhor ficar ligado, conectado, porque a gravidade da situação demanda de todos algum nível de participação. O exercício da cidadania, desde casa, é um imperativo.

É preciso se informar, pensar, ser solidário e fortalecer uma saída coletiva a partir de casa.

A crise como se apresenta hoje no Brasil tem muitas dimensões, para além da crise sanitária. A situação no país é grave e tende a piorar.

A pandemia chega num momento em que vivenciamos uma crise econômica profunda, já com características de recessão.

O que significa, em um futuro próximo, coincidindo com o período de pico da crise do coronavírus, mais desemprego, mais fome, mais miséria, mais fragilidade social.

O resultado dessa combinação poderá vir a ser uma crise humanitária de proporções.

Temos também uma crise política; estamos como uma nau sem rumo, com um insano despreparado à frente do Governo Federal, que tem se dedicado a destruir o Estado, os direitos sociais, o que temos de proteção social e as estruturas e políticas públicas. Sistematicamente, Bolsonaro, seus filhos e os principais apoiadores vêm disseminando o ódio e a desavença e pregando a violência como linguagem política.

A crise política está se agravando e ampliando a vulnerabilidade do país diante da pandemia e da crise econômica. Esta, hoje, é em grande parte, produzida pelo próprio governo.

A crise sanitária, por seu lado, potencializará nossas fragilidades econômicas políticas e sociais na medida em que for avançando.

Mesmo nesta condição de confinamento, vai ser necessário construir uma vontade política capaz de enfrentar as adversidades e nos indicar um caminho.

Todos podem contribuir para o enfrentamento da crise sanitária e para sairmos dessa situação em que o país se encontra. Precisamos cerrar fileiras, mesmo a partir de dentro de casa e contribuir para minorar o impacto sobre as pessoas, principalmente sobre os mais pobres, por serem os mais vulneráveis.

Muitas questões precisam ser discutidas e vai ser necessário mobilizar muitas áreas técnicas e acadêmicas, movimentos sociais e lideranças sociais.

Ações e estratégias precisam considerar a interação entre a crise sanitária e essas externalidades econômicas, políticas e sociais. O planejamento das ações será necessariamente sobre uma base conceitual, técnica a ser referenciada territorialmente para que de fato as soluções sejam adequadas, eficientes e eficazes.

Insisto que a crise no Brasil não é só sanitária e será preciso que as ações dialoguem com essa característica multifacetada do momento, para reduzir ao máximo os impactos de várias naturezas.  E, principalmente, reduzir o número de mortes.

Tão importante quanto o isolamento é a informação. Estamos diante de uma situação inusitada em praticamente todos os seus aspectos que vai exigir mudanças comportamentais de todos os brasileiros e brasileiras. Para isso, todos precisam saber o que estão combatendo e como se proteger.

As medidas gerais de combate ao coronavírus, como a quarentena e o isolamento doméstico, por exemplo, não têm a mesma eficácia nas favelas e bairros populares. As ruas estreitas e principalmente as moradias na sua maioria são precárias, sem ventilação, pequenas e com muitos moradores por casa, sem condições de isolar alguém que apresente sintomas de ter sido contaminado.

Sem falar que boa parte dessas pessoas não podem deixar de sair para trabalhar.

A redução drástica da presença das pessoas nas ruas em nossas cidades e a interrupção de boa parte da vida urbana certamente irá piorar em muito a situação econômica e as condições de vida dos mais pobres. Subempregados, biscateiros, populações que vivem nas ruas, desempregados, trabalhadores informais entre outros terão suas condições de vida pioradas e as dificuldades tradicionais serão acrescidas de outras novas.

Estou falando da maioria dos brasileiros e brasileiras.

O que deverão fazer para sobreviver nos próximos meses durante a crise sanitária? Onde vão buscar os recursos?

Estamos diante de uma situação muito grave, complexa, com múltiplas dimensões que interagem e potencializam todas as fragilidades da nossa sociedade. Uma crise quase perfeita.

Exatamente quando a sociedade mais precisa construir uma saída coletiva, de união, solidariedade e de muito afeto entre nós, temos no comando do país a nossa maior fragilidade.

No momento em que a sociedade mais precisa de todas as suas estruturas públicas para reduzir os danos e se defender dos impactos do coronavírus, elas são destruídas, fragilizadas e reduzidas em sua capacidade de prestar seus serviços.

As universidades, suas pesquisas e o SUS são exemplos de estruturas e instituições que estão sendo fragilizadas por esse governo.

Esta dimensão política da crise é gravíssima e está ampliando e multiplicando a vulnerabilidade do país diante dessa pandemia.

O quadro geral não é bom e precisamos considerar esta situação. A sociedade organizada, a cidadania em geral, as organizações da sociedade e os partidos democráticos e populares podem dar uma grande contribuição. Podem ter uma postura importante que irá impulsionar em muito o enfrentamento da crise sanitária e nos fortalecer para enfrentar a crise econômica, social e política.

Essa crise é uma oportunidade de retomarmos o caminho democrático.

Desde casa, podemos bater panelas, nos unir e construir os caminhos para reconquistar a democracia com justiça social e sustentabilidade.


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