Julian Rodrigues

22 de agosto de 2019, 22h43

7º Congresso do PT é sobre o futuro da esquerda (e da luta contra o bolsonarismo)

Julian Rodrigues: “A mudança do PT influi imediatamente na mudança, renovação, reaglutinação da esquerda brasileira. E, portanto, nas formas, ferramentas, táticas, bandeiras de resistência e enfrentamento ao governo Bolsonaro”

Foto: Francisco Proner/Farpa Fotocoletivo

O Partido dos Trabalhadores realizará seu 7º Congresso Nacional   entre 22 e 24 de novembro, provavelmente em São Paulo –   quando serão escolhidos a/o nova/o presidenta/e mais as pessoas que vão compor a nova executiva e o diretório nacional. Também serão discutidas e aprovadas resoluções sobre a tática, o programa, organização e a estratégia do Partido.

Os debates já começaram. No dia 8 de setembro, o conjunto de filiados do PT escolherá as direções e os presidentes dos diretórios zonais e municipais, mais as chapas de delegados aos congressos estaduais e nacional. Nos congressos estaduais (que acontecerão em outubro) vão ser eleitos os presidentes e os/as dirigentes estaduais.

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Não se trata apenas de um processo interno ao PT, burocrático, que visa somente renovar burocraticamente as direções. O PT é a maior organização político-social da esquerda e do campo democrático-popular. Seu futuro diz respeito a todo processo de reorganização do bloco progressista brasileiro. E, mais importante, o Congresso dirá como reposicionar (ou não) o maior partido da classe trabalhadora – em tempos de neofascismo e ultraliberalismo.

Em junho de 2015, o Congresso petista em Salvador rejeitou, por margem estreita, a proposta de demitir Levy – e interromper as políticas neoliberais, que Dilma estava a executar (com apoio de Lula). Deu no que deu: o governo Dilma dobrou, em um ano, a taxa de desempregados. Criou recessão, sinalizou com o discurso errado de reforma da previdência e ainda cortou políticas sociais. Ficou quase impossível impedir o golpe de 2016. Fizemos, no segundo governo Dilma, exatamente o contrário do que prometemos na campanha de 2014.

Passado o golpe, o 6º Congresso deu passos importantes. Fez um balanço crítico do período em que estivemos à frente do governo. Apontou o “Fora Temer” e “Lula Presidente” como uma verdadeira insubordinação – contra a nova institucionalidade golpista. Gleisi Hoffmann, a presidenta eleita (primeira mulher a dirigir o PT) expressou, com sua energia e combatividade, o giro à esquerda pactuado naquele Congresso.

Lula preso – Bolsonaro, eleito e implementando aceleradamente um programa ultraliberal e neofascista.

Nesse cenário, incompreensivelmente, setores importantes do campo majoritário operam um “giro à direita”. Trabalharam [e foram derrotados, principalmente pela postura de Lula] para que Gleisi não fosse a candidata à presidência da tendência moderada (por considerarem-na combativa demais!).

Continuam, entretanto, a articular não só uma crítica [à direita] às resoluções do 6º Congresso, como também formulam  suas políticas como se estivéssemos em 2010: não houve golpe, está tudo bem, é só continuarmos na mesma toada  (nem Lula preso, nem Haddad condenado os sensibilizam).

Houve um golpe em 2016. Parece que boa parte da direção majoritária do PT ainda não se deu conta disso. Mudou o período histórico. Não vivemos mais em uma democracia liberal.

A classe dominante brasileira, alinhada ao grande capital internacional e ao imperialismo estadunidense, rompeu com os princípios da Constituição de 1988 – eles derrubaram Dilma e prenderam Lula.

Vivemos um período de transição.

Não estamos ainda em uma ditadura aberta e nem sob uma democracia. O “Estado de exceção” pode evoluir para uma eventual ruptura com o que resta da democracia formal. Esse novo período impõe para toda a esquerda brasileira e, particularmente para o PT, o imperativo de nos reorganizamos.

Aquecer os debates

Tudo ao mesmo tempo agora.

Estamos desafiados a jogar todas as forças na construção das mobilizações contra o necrogoverno de Bolsonaro. Mas, ao mesmo tempo, é necessário incidir na reorganização do campo democrático-popular.

Infelizmente, até agora, o “clima” interno no PT é de baixa mobilização e de pouco debate político. O cenário, hoje, é de realizarmos um sétimo Congresso menos politizado e mais rebaixado programática e ideologicamente do que o sexto – um verdadeiro passo atrás.

Muitos setores da esquerda e do PT ainda não se convenceram do seguinte: nada de positivo vai acontecer no país enquanto Lula permanecer preso. Libertar Lula é a chave para mudança da correlação de forças e para o processo de reconstrução da democracia no Brasil.

Nesse ritmo despolitizado, frio e desmobilizado em que correm os debates hoje, o PT corre o risco de continuar a ser um partido meio moderado, meio frouxo, meramente eleitoral, majoritariamente branco, masculino e envelhecido.

Entretanto, as definições que o PT vier a fazer dizem respeito ao conjunto da esquerda brasileira – queiramos ou não.

O PT só continuará a ter um papel primordial se reafirmar-se como partido socialista, defensor de um programa democrático popular.

Mas, não há socialismo sem feminismo! Não há transformação possível no Brasil sem o enfrentamento ao racismo estrutural, sem que negras e negros, periféricos, jovens, pobres, indígenas, estejam à frente das mobilizações e dos núcleos dirigentes.

A reorganização do PT passa por nos posicionarmos na vanguarda das lutas pelas liberdades democráticas, pelos direitos civis, políticos e sociais, pelos direitos ambientais, pelo conjunto dos direitos humanos, LGBTI, da juventude, pelos direitos sexuais e reprodutivos, pelo internacionalismo, pela soberania nacional, pela igualdade social e pela defesa intransigente da democracia, do meio ambiente, do desenvolvimento do país e dos direitos do povo brasileiro.

A mudança do PT influi imediatamente na mudança, renovação, reaglutinação da esquerda brasileira. E, portanto, nas formas, ferramentas, táticas, bandeiras de resistência e enfrentamento ao governo Bolsonaro.

Quem se preocupa com os rumos da esquerda brasileira tem que prestar mais atenção ao processo de eleição das novas direções do PT – e ao debate congressual do Partido.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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