Julian Rodrigues

08 de fevereiro de 2020, 12h53

Agenda de costumes?

O caráter autoritário, fundamentalista religioso e neofascista de Bolsonaro está intimamente ligado à sua agenda ultraliberal. As duas faces do governo se complementam

Terreno dos costumes e do comportamento. Pauta de costumes.  Desviar o debate para agenda de costumes. O verdadeiro cerne do governo é a agenda econômica ultraliberal.

Não é só a grande mídia e a direita que tem usado e abusado da expressão “pauta de costumes” para denominar um universo de temas que vão desde a igualdade de gênero e da igualdade racial, passando pela cultura e artes até o direito à livre orientação sexual e identidade de gênero.

Há aí, dois grandes equívocos.

Primeiro, rebaixar as liberdades democráticas, as reivindicações feministas, as batalhas anti-racistas, a liberdade de expressão e de criação artística, os direitos sexuais e reprodutivos e a luta contra todo tipo discriminação e violência a uma mera questão de “costumes”. É natural que conservadores, neofascistas e bolsonaristas envergonhados se utilizem desta estratégia. Mas, gente de esquerda manejando essa expressão é algo inaceitável.

[Delegacias de Costumes nos remetem aos anos 1930 – tinham como função primordial perseguir putas, viados, pretos, “vadios”, embriagados, loucos, sambistas, artistas, candomblecistas, tudo e todos que pudessem “ofender a moral e os bons costumes”. Ou seja, tratou-se desde sempre, de um mecanismo repressivo do Estado autoritário contra trabalhadoras e trabalhadores, negras e negros, pobres, artistas, intelectuais, mulheres, LGBTI].

O segundo grande equívoco é o reducionismo economicista.

Parte da esquerda ainda não entendeu que o neofascismo, o autoritarismo, o fundamentalismo religioso, a perseguição às artes, à educação, à ciência, o machismo, o racismo, a repressão sexual são partes constitutivas da aliança que sustenta o bolsonarismo.

O caráter autoritário, fundamentalista religioso e neofascista de Bolsonaro está intimamente ligado à sua agenda ultraliberal. As duas faces do governo se complementam.

A retirada dos direitos dos trabalhadores, o desmonte das políticas sociais e a privatização/desnacionalização são indissociáveis ao ataque às artes, à cultura, às ciências, e ao estimulo do ódio contra as mulheres, a população negra, às LGBTI, ou ao enfrentamento às liberdades de modo geral.

Não há “cortinas de fumaça”.  Existe uma plataforma unificada:  ultraliberal e ao mesmo tempo neofascista.

Toda vez que alguém usa o termo “pauta de costumes” a intenção (consciente ou não) é a de “passar um pano”, subestimar a luta das mulheres, negros e negras, LGBTI, jovens, periféricos, dissidentes. No fundo, reduzir a importância da luta pelas liberdades democráticas.

Ninguém está preocupado com hábitos individuais ou comportamentos. O que se discute é reconhecimento de direitos. E a garantia de todos direitos individuais e coletivos.

Estamos diante de um governo de destruição nacional, que ataca simultaneamente os direitos econômicos e sociais, o meio-ambiente, as liberdades democráticas e a soberania nacional.

O neofascismo de Bolsonaro e o programa ultraliberal de Guedes se articulam, se complementam e garantem a sustentação política e social do atual governo.

Devem ser enfrentados de conjunto, portanto.

Sem hierarquizações. Fugir de um assunto só fortalece o lado de lá. A esquerda é por igualdade social, liberdade artística, racionalismo e por democracia plena, liberdade e por direitos humanos. Somos herdeiros do iluminismo e da tradição marxista.

Eles estão no auge de uma “guerra cultural”. A resposta do campo progressista não pode ser arriar bandeiras.


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