Julian Rodrigues

05 de março de 2020, 21h20

Boas sacadas e péssimos conselhos – sobre a entrevista de Marcos Nobre

Em sua coluna, Julian Rodrigues analisa a mais recente entrevista de Marcos Nobre, presidente do Cebrap e intelectual da Unicamp

Foto: Agência Pública

Li com cuidado a longa entrevista do presidente do Cebrap – e professor da Unicamp – Marcos Nobre, que tem feito certo sucesso em setores da nossa bolha.

Sempre é gratificante tomar contato com pensamentos inteligentes e articulados, vindo de intelectuais democráticos. Nobre é colunista da excelente revista dos banqueiros liberais-cult (e blasés niilistas), a Piauí. Não sei se é filiado a algum partido, mas tem todo tipão de “tucano progressista” (essa espécie quase extinta).

Marcos Nobre tem o mérito de combater as posições que subestimam a ameaça de fechamento do regime (“trata-se de um presidente que quer, de fato, destruir as instituições democráticas”).

Também acerta em cheio ao:

i.confessar que fica assustado quando vê gente achando que o governo está acuado (setores da esquerda, por exemplo, apostam no impeachment!);

ii. explicar que, apesar da intenção autoritária, nem Bolsonaro sabe exatamente hoje como fazer soterrar de vez o atual regime;

iii. chamar a atenção para o contexto internacional de ascensão da extrema direita;

iv. apontar, que, diferentemente da percepção do senso comum, há método nas ações de Bolsonaro, que “não tem pressa”;

v. evidenciar que o bolsonarismo é cópia da estratégia de Trump e que sua lógica “antissistêmica” vai corroendo por dentro as instituições – o projeto bolsonarista é destrutivo e não é para quatro anos, é para “décadas”;

vi. reconhecer que Bolsonaro é favorito para as eleições de 2022 e sua a tática de fidelizar um terço do eleitorado e mobilizar milhões de apoiadores orgânicos.

Só por aí, já vale a entrevista, porque desfaz ilusões presentes não só entre os “neoliberais progressistas”, mas mesmo em muitos setores dirigentes (para não mencionar boa parte das bases) da esquerda brasileira.

Contudo, entretanto, todavia, vou destacar posições e análises que levam a propostas “táticas” que desarmam objetivamente o campo democrático-popular para o enfrentamento necessário ao bolsonarismo.

[Um parênteses. O arcabouço teórico de Nobre não é estruturado a partir da tradição marxista. Ele trabalha com ênfases em conceitos como “sistema político” (em detrimento de uma visão mais estrutural das relações econômico-sociais e da velha e boa luta de classes). É também o criador do extravagante conceito de “peemedebismo”, que seria a principal chave para entender o período pós-1988, no lugar de “presidencialismo de coalizão”, por exemplo – para ficarmos no campo apenas da ciência política.]

Marcos Nobre foi crítico do impeachment e também de certos exageros da Lava Jato. Mas, salvo engano, nunca qualificou a derrubada de Dilma como um golpe judiciário-parlamentar-midiático, articulado aos interesses da grande burguesia e do imperialismo.

Como analista de conjuntura, cometeu bobagens gigantes ao, por exemplo, subestimar o governo Temer, que “não teria coordenação”. Ou, lunaticamente , palpitar, em maio de 2017: “O Moro vai absolver o Lula no caso do apartamento do Guarujá e do depósito dos presentes da Presidência para mostrar a imparcialidade.”

O foco de Nobre é criticar o tal “sistema político” e os partidos, ignorando os interesses materiais, os conflitos entre as classes e suas frações, a luta social – fazendo uma indistinção entre PT e PSDB, por exemplo.

A partir – e coerentemente com – tal framework, Marcos Nobre estabelece de saída um pressuposto equivocado. Ignora, na entrevista, o golpe de 2016, a prisão e interdição de Lula em 2018. É como se a desgraceira tivesse começado só no ano passado.

Outro aspecto problemático é o “chutão” que Nobre dá sobre o papel dos militares no governo.

Esse é um dos pontos mais complicados, porque os setores progressistas, a esquerda, a academia (com raras exceções) meio que ignoraram as Forças Armadas no pós-1988. Pouco nos dedicamos a compreender, analisar, monitorar, reformar, incidir sobre a “questão militar”. A ponto de além de termos criado cuervos em nossos governos, não dispormos, hoje, de consistente avaliação ou mesmo informações reais sobre o que, afinal, pensa a cúpula militar.

Há mesmo diferenças entre eles, qual papel real jogaram na eleição de Bolsonaro, quais são as contradições – se é que existem, até onde operam para o fechamento (ou não) do regime?

O professor da Unicamp afirma: “acredito que grande parte dos militares – eu diria que a maioria dos que estão no governo – não compactua com um projeto autoritário.”

Ora, pergunto. Por que não compactuariam? Quem não compactuaria, cara pálida? Heleno? Mourão? O próprio Vilas Boas que ameaçou um golpe pelo Twitter para que o STF deixasse Lula ser preso?

Essa crença em uma certa tendência racionalizante e moderadora dos generais me parece puro wishfull thinking – e cada vez mais desacreditada na vida real.

O interessante é que o próprio professor nuança sua posição benevolente com os milicos ao afirmar: “a corporação militar entendeu que não tinha como se separar desse governo e que, portanto, o mal menor seria participar dele para impedir o desastre” .

Por último e o mais importante: a contradição no raciocínio que fundamenta os conselhos práticos de Nobre para o que denomina em um momento de “forças estabelecidas” e em outro de “campo democrático”.

Em determinada passagem da entrevista, o presidente do Cebrap reconhece que a estratégia de Bolsonaro (cativar 1/3 do eleitorado) é eficiente, que ele hoje é favorito – e que toda a lógica político-eleitoral é baseada na polarização, na radicalização, na afirmação de posições antissistêmicas.

Aí, na hora de falar sobre o campo progressista, o anti-petismo grita mais alto. Não serve mais a tática de reforçar as posições do campo popular em primeiro lugar.

Diz ele: “a lógica que o Lula expressa nos discursos é a de reforçar a fidelização do seu eleitorado; ou seja, reforçar a lógica dos três terços, fazendo com que as candidaturas da centro direita e da direita – que considero do campo democrático porque não são Bolsonaro e de extrema direita – tenham de se contrapor a esse discurso dele; e portanto, reproduz a luta entre forças dentro do campo democrático para ver quem é que vai chegar ao segundo turno. “

Decorrência desse raciocínio é (contraditoriamente a toda crítica que historicamente o professor faz ao tal “sistema político”) a defesa de uma união do tipo “todos contra Bolsonaro”. Com Lula e o PT escondidinhos, por supuesto, lá no fundo da sala.

Nobre ignora que os autoproclamados “liberais”, a grande mídia, os banqueiros, as elites que apoiam o governo Bolsonaro e a política de Guedes – mesmo eventualmente tapando o nariz e condenando “excessos”.

Na análise dele não existe economia, não existe materialidade social, desigualdade social, geopolítica – coisa impressionante. Um grau de idealismo assustador.

A ponto de afirmar: “dependemos de um acordo entre partidos e forças políticas estabelecidas; é preciso que se convençam de que é necessário fazer um acordo para além da eleição, para defender que as eleições continuem existindo do jeito como a gente conhece”.

Certíssimo Nobre ao escancarar que as eleições do jeito que conhecemos estão em jogo (aliás, desde 2016, quando contestaram o resultado do pleito presidencial, não é mesmo?).

Mas, como assim “forças estabelecidas”?? Quem são, onde vivem, como se reproduzem? É a turma que apoia o ultraliberalismo de Guedes? É a galera do rentismo? Ou a mídia que vive passando pano para o capitão?

Que compromisso as elites brasileiras tem, de fato, com a democracia (mesmo em sua forma “liberal”)? Nunca tiveram, ora. Se não apoiam hoje um regime fechado é porque o mesmo ainda não é necessário para garantir o avanço de suas “reformas”.

E, óbvio, como não poderia deixar de ser, depois de todas essas viajadas idealistas, Marcos Nobre só teria que concluir propagandeando a tal tática de “união nacional”, a frente mais ampla do mundo.

Faz, então, uma rasgação de seda impressionante ao Flávio Dino: “a grande esperança que temos, alguém que compreendeu profundamente o momento grave que a gente vive”.

Não vale mencionar, repito, a completa ausência do povo, sociedade organizada ou mobilização social nessa longa análise do intelectual da Unicamp.

Todavia, confesso: senti falta, de verdade de dois, ou melhor, três personagens em toda a longa entrevista: Rodrigo Maia, Luciano Huck, e de um grande sujeito oculto, cebrapiano-mor, um certo FHC .

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum


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