Julian Rodrigues

30 de abril de 2020, 11h16

Bolsonaro é idiota, incompetente, irresponsável, louco ou psicopata?

Xingar o ex-capitão por meio de dezenas de qualificações morais, avaliações de desempenho ou diagnósticos psiquiátricos faz bem ao nosso fígado e muito mal à análise do cenário e à definição das melhores táticas

Manejar categorias psicológicas/psiquiátricas para caracterizar Bolsonaro e seu governo além de reforçar estigmas e discriminação contra pessoas com sofrimento mental não ajuda em nada na compreensão da conjuntura. Tenho insistido nesse tema.

Mas há outro viés preponderante nas adjetivações que o campo progressista direciona ao ex-capitão e sua família: trata-se de um conjunto de qualificações relacionadas à  sua cultura, inteligência, capacidade cognitiva, competência, postura. São críticas éticas e estéticas.

Por que isso não ajuda em nada – aliás, só atrapalha –  o entendimento da conjuntura e, consequentemente,  a organização das ações da esquerda?

Primeiramente, há uma subestimação evidente e reiterada da força do bolsonarismo, de sua base social – do carisma e do talento comunicativo do ex-capitão. De seu tirocínio, resiliência e capacidade de liderar um movimento, aglutinar setores – tudo com assessoria e apoio estadunidense. E com construção orgânica. Olavo de Carvalho é uma chave fundamental para entender o bolsonarismo, quase sempre  por nós ridicularizada.

Em segundo lugar, qualificar o atual governo como inepto é utilizar parâmetros equivocados de julgamento. Não se avalia um governo de ultra-direita e disruptivo da mesma maneira que se trava o debate com a direita tradicional, com os neoliberais. Foi rompido o pacto democrático de 1988. Houve um golpe em 2016. Neoliberais se aliaram com os neofascistas.  Bolsonaro é fruto dessa ruptura, em um cenário mundial de crise do capitalismo e  ascensão de projetos neofascistas.

Em terceiro lugar, toda vez que denunciamos o  atual governo sem denunciar  seu caráter autoritário e ultra-liberal estamos despolitizando a própria luta política. Levando o debate para um campo idealista, moralista. E, ao mesmo tempo, propagamos certo auto-engano. Subestimamos o adversário. Se Bolsonaro fosse burro, não seria presidente. Se só fizesse bobagem, não teria tal sustentação popular e liderança comunicacional.

O quarto tópico: é preciso entender o neofascismo. O que parece ilógico, não o é. Há uma racionalidade, um projeto. Há teoria, aparato, intuição, objetivos. Ao demitir Moro, por exemplo, Bolsonaro sangra um pouco, perde alguns pontos. Mas avança no controle do Estado (depura , corta na carne, mas  se fortalece no médio prazo).

O fascismo se constrói, historicamente por meio uma base mobilizada, radicalizada.  Morreram 5 mil. E daí? O fascismo cultua a morte, celebra a força física, é eugenista. Há uma estrutura de comunicação gigantesca que mobiliza a base bolsonarista. Aliás, as últimas pesquisas mostram um fortalecimento da liderança presidencial em segmentos mais pobres, no Nordeste (efeito dos R$600?).

Se superarmos o senso comum e o fígado, podemos melhorar (politizando) as formas de carimbar negativamente o governo.

Por exemplo: que tal focarmo-nos na crítica ao projeto político? Aos interesses de classe que Bolsonaro defende? A explicar sua necropolítica? A subordinação aos EUA? Os arreganhos ditatoriais?

Vamos lá.

Que tal substituir bronco, tosco, paranóico, incapaz, louco, imbecil, por palavras que remetam à política, ao projeto, às opções ideológicas de Bolsonaro? Tipo:  autoritário, aprendiz de ditador, capacho dos EUA, anti-pobres, miliciano, defensor de bandido, corrupto,  elitista, a serviço dos ricos, entreguista,  reacionário, neofascista, machista, racista, transfóbico, homofóbico, irracionalista, sexista, neoliberal, ultra-conservador,  e por aí vai.

Não é preciosismo. Sem bons diagnósticos não adotamos boas táticas. Patologizar  a política, subestimar Bolsonaro ou acreditar que “o governo está para cair” só vai atrasar a reorganização do campo popular, das esquerdas, do PT.

“Não se afobe que não, que nada é pra já” (Chico).

Sem estudar, descrever, analisar e caracterizar profundamente o bolsonarismo, a nós só restarão o senso comum e a repetição de ações passadas, como se nada tivesse mudado.

Xingar direitinho Bolsonaro pode ser um primeiro passo para compreender o tamanho do problema e começar a preparar nossa reorganização e fortalecimento.

Mais política, mais racionalidade. Mais estudo e formação. Reorganização da comunicação, de alto a baixo, e giro às bases, aos territórios. Tentar falar com o povo de novo, e não nos afundarmos na epidemia de lives que ninguém vê.

A vida é dura –  a guerra, longa. Preparemo-nos.


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