Julian Rodrigues

20 de fevereiro de 2020, 10h23

Bolsonaro vai dar um golpe?

Aumento da participação de militares no núcleo do governo somado à escalada de declarações extremistas e o descontrole das polícia seriam o prenúncio do começo de uma ditadura aberta?

Bolsonaro, então deputado, parabeniza militares pelo golpe de 64 (Arquivo)

Já houve um golpe no Brasil, que começou em 2016.  Esse sempre deve ser o pressuposto de qualquer análise.

Estamos diante de um necrogoverno.   Um governo  de destruição do país que ataca simultaneamente os direitos sociais, o meio-ambiente, as liberdades democráticas e a soberania nacional. A operação Lava-Jato, a destituição de Dilma, a prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro inauguraram um Estado de exceção –    houve drástica ruptura com o pacto liberal democrático de 1988.

Apesar de muitas contradições e dificuldades, o bolsonarismo  logrou consolidar  uma aliança  que aglutina  os interesses do imperialismo, do grande capital (sobretudo do  capital  financeiro), da mídia, do agronegócio,  dos setores reacionários das  classes médias,  do Exército,  do sistema de justiça,  das polícias militares,  das  milícias e dos fundamentalistas religiosos.

Um governo ultraliberal e neofascista –  ao mesmo tempo.

 As elites autointituladas “liberais”, precisam do capitão para avançar no  desmonte  do  país e dos direitos dos trabalhadores.  E  Bolsonaro precisa dos “liberais” para sustentar seu governo e impulsionar a luta contra o “marxismo cultural” e toda  agenda obscurantista.

A retirada dos direitos dos trabalhadores, o desmonte das  políticas  sociais,   a privatização/desnacionalização são indissociáveis do ataque às artes, à cultura, às ciências, do estimulo do ódio contra as mulheres, à população negra, às LGBTI e  também  da restrição  às  liberdades  democráticas em geral.  Não há “cortinas de fumaça”.  Existe uma plataforma unificada –    é ela   que viabiliza  e põe de pé o atual governo.

Claro que há contradições.

O PIG, os  bancos, etc  prefeririam ter  um governo tipo FHC, Aécio ou Huck, sem  verborragias e tosquices medievais.  Porém, essa turma sabe que é a tropa de choque bolsonarista que  garante e assegura a implementação das reformas antipovo.

Então, tapam o nariz e seguem em frente. Vez ou outra esboçam reações, mais ou menos hipócritas a algum  destempero gritante (como agora no ataque misógino à jornalista Patrícia Mello).

Sem ilusões, todavia. O governo  é fortíssimo, conta com  ampla base de apoio;  opera com estratégia, com tecnologia, método e  alinhamento orgânico à extrema-direita norte-americana. Nada mais errado do que acreditar que Bolsonaro e família são “burros” –   ou avaliar que o impeachment é apenas questão de meses.

Ditadura agora, já? 

Sim, estamos diante de um governo que tem um núcleo neofascista.

Contudo, o regime político não é fascista nem é uma ditadura aberta.

Isso não significa que o clã presidencial, os olavistas  e  o núcleo duro do bolsonarismo não sonhem com um regime autoritário. Bolsonaro já insinuou que  pode ficar  mais de oito anos na presidência. Mas nem tudo que se quer, se pode..

Privatizações, reforma da previdência, nova reforma trabalhista,  reforma sindical  e  agora reforma administrativa. O programa ultra-liberal de Guedes  –   e de  Rodrigo Maia, queridinho da galera da tal frente ampla – vai muito bem, obrigado.

Até o momento não foi preciso restringir ainda mais as liberdades democráticas para impor a agenda das grandes corporações internacionais, do rentismo, da grande mídia –  da burguesia brasileira como um todo.

Não há, portanto,  razão objetiva para que as classes dominantes nacionais e os EUA, apostem, nesse momento, em uma  ditadura militar ou assemelhada, que tem custos muito altos. O fechamento total do regime não é necessário.

É muito mais funcional e palatável para a burguesia operar em um ambiente que preserve um mínimo de liberdades democráticas.  Os sinais deles,  aliás,  são outros: estão mandando recados para Bolsonaro de que há limites nas coisas. E, como disse um amigo: “não estão minimamente interessados em dar todo poder para um Napoleão de hospício”.

Isso quer dizer que há está descartado um golpe? Não. Se precisar, eles fazem ditadura old school. Vide o golpe na Bolívia – estilo tradicional, anos 1970, com pitadas modernas de guerra híbrida comunicacional e mobilização do fundamentalismo religioso.

MAS, não é esse o cenário principal no Brasil hoje.

Por último: as Forças Armadas. Um tema complexo, o qual a esquerda domina pouco, é verdade. Temos dificuldade para  analisar profundamente seu papel,  contradições internas, pretensões…

A recente “militarização” do núcleo palaciano do governo não deve ser lida como indício de golpe militar iminente.  Por várias razões. A principal delas na minha  opinião: não há nem acúmulo, nem unidade estratégica-política-programática no Exército ( muito menos combinação com os EUA) que coloquem,  hoje, os milicos como protagonistas de um  eventual golpe.

Se houver fechamento, não será prioritariamente pela  mão deles. E não será do jeito antigo. Reparem em Moro, nas milícias, nas PMs, no Ministério Público e no Judiciário. São outros os atores principais do núcleo neofascista.

Isso não quer dizer que a cúpula e a maioria das Forças Armadas não apoiem totalmente o governo ou sejam  democráticas. Mas, de forma aparentemente paradoxal,  elas exercem um papel  racionalizador e moderador na bagunça instalada. Não nos deixemos enganar pelas bravatas do  tal  Heleno, que sempre foi ligado ao esgoto do Exército e exerce bem menos influência real do que  tenta aparentar.

Sempre alerta

Resumindo: muita calma nessa hora.  Mas sem calma demais. Não vai ter golpe amanhã. Muito menos  impeachment.

 A situação é grave, as dificuldades de mobilização são imensas. O bolsonarismo não é uma chuva de verão que passará rápido. O estrago promovido no tecido social e institucional do país é profundo e nos impactará por muitos anos.

Por outro lado,  há  desgaste crescente – embora limitado  –  do governo. A economia não vai entregar o que prometem. O mal estar pode crescer. Começam a pipocar lutas e greves, como a heroica paralisação dos petroleiros. Temos  logo, logo  eleições municipais, quando abrir-se-á  uma janela maior para contestação de massas à Bolsonaro.

Nosso desafio, de fato, talvez   seja  acertar  muito mais na análise conjuntural e estrutural, pressuposto para operar a  reorganização, fortalecimento e  construção de convergências práticas no campo democrático-popular.

Ah,  e claro:  mudar tudo na nossa comunicação – mas isso é tema para outros artigos.


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