Constranger o PT de São Paulo só serve para dividir e enfraquecer toda esquerda

Leia na coluna de Julian Rodrigues: "Pleitear retirada de qualquer candidatura para beneficiar outro postulante, a essa altura do campeonato, é algo que transita entre a ingenuidade e a falta de formação política"

Nada pior para unidade que constranger nossas próprias candidaturas, seja em São Paulo, no Rio, em Porto Alegre ou em Fortaleza.

Vinícius de Moraes poetizou e Lulu Santos cantou: “a vida vem em ondas, como o mar”. Pois é. E o antipetismo é uma onda forte, que vem vindo por todos os lados. Até de onde menos se esperava. Até porque, já dizia minha avozinha, lá em Uberaba: “de boas intenções o inferno está cheio”.

Eu e muita gente boa defendemos fortemente a formação de uma Frente de Esquerda. Mas, não foi o que prevaleceu. Houve alianças importantes, mas a lógica da fragmentação prevaleceu – seja em virtude da legislação eleitoral, seja por visões legítimas de autoconstrução, seja porque o PSB e o PDT estão a construir um campo de centro-esquerda, ao qual o PCdoB parece querer se juntar.

O PT apoia o PCdoB em Porto Alegre e em São Luís. Apoia o PSOL em Floripa e em Belém. Se Freixo fosse candidato, Benedita seria sua vice (e provavelmente Boulos não seria candidato se Hadddad se dispusesse a representar o PT nas eleições paulistanas).

Em Salvador, Denice Santiago tenta ir ao segundo turno contra o candidato de ACM Neto. PCdoB e PSOL têm candidaturas próprias. A brava petista Luizianne Lins enfrenta o bolsonarismo e o candidato da oligarquia Ferreira Gomes em Fortaleza – , sem o apoio do PSOL, que marca 3% nas pesquisas.

Manuela, nossa musa, candidata do PT e do PCdoB em Porto Alegre, não tem o apoio do Psol, que apresenta Melchionna, jovem e brilhante deputada, que marca quase 10% nas pesquisas, divide o eleitorado progressista. No Rio de Janeiro, Benedita da Silva encanta todos setores democráticos, mas tem muita luta pela frente para poder ir ao segundo turno. O PSOL também tem uma brava candidata, Renata Souza – não se cogita a retirada da candidatura do Psol para fortalecer Benedita.

“Psol não trabalha somente para ganhar a eleição”, diz, corretamente, Manu Jacob, candidata do Psol em Goiânia, que não apoia Adriana Accorsi – a petista que está em terceiro lugar e luta para ir ao segundo turno (Jacob, por sua vez, não tem pontuado nas pesquisas). Em Vitória, João Coser (PT) aparece em segundo lugar, rivalizando com os neoliberais do ex-PPS – o PSOL lançou Gilberto Campos (1%), e o PCdoB lançou Namy Chequer (2%).

Em Campo Grande, Pedro Kemp (PT), com 6% , corre para tentar ir ao segundo turno contra dois candidatos da direita. Cris Duarte, do Psol, não tem pontuado, nem cogita retirar para apoiar Kemp. Em Natal, o candidato da governadora Fátima Bezerra é o combativo senador Jean Paul Prates (PT). Psol lançou Nevinha Valentim e o PCdoB, Fernando Freitas. Segundo as últimas pesquisas, a candidata do Psol não pontua.

Pode não ser o cenário ideal, mas é legítima toda e qualquer candidatura de esquerda. A unidade política, programática, tática eleitoral é construção árdua, complexa. Há táticas distintas, avaliações distintas.

Não tem mocinhos e vilões. Não há os que só querem construir seu partido contra os altruístas. Espanta-me certa simplificação que corre por aí, e que acaba se tornando deletéria ao constranger o PT de São Paulo e se somar ao senso comum.

Vejam: uma vez concluído o processo, nos resta fazer campanha. Não existe hipótese de nenhum partido, em nenhuma cidade, retirar uma candidatura há 20 dias.

Ou se faz um acordo prévio, ou as candidaturas vão até o final, legitimamente. Não existe transmigração automática de votos, se A ou B retirar sua postulação. Muito menos há transferência do tempo de TV, dos recursos do Fundo Partidário e tudo o mais. Com todo respeito, pleitear retirada de qualquer candidatura para beneficiar outro postulante, a essa altura do campeonato, é algo que transita entre a ingenuidade e a falta de formação política.

Pior ainda é parte da militância de esquerda se basear nas pesquisas eleitorais de institutos duvidosos, ou mesmo dos “consagrados”. Para além do histórico de manipulações e erros, a metodologia de sondar as pessoas por telefone é altamente questionada e provavelmente muito mais falha. Isso para não mencionar que grande parte do povo decide seu voto tem sido na reta final, nas últimas 72h ou mesmo 24h antes do pleito.

Escrevo isso tudo para revelar meu incômodo com o bullying anti-PT de São Paulo promovido por “figurões” progressistas. Infelizmente, tem contado com adesão de uma franja da militância petista das classes médias.

Vejam: nem Jilmar vai retirar sua candidatura, nem isso seria bom para levar Boulos ao segundo turno necessariamente. Temos uma chapa de candidatos e candidatas à Câmara Municipal. Temos história e inserção nas bases. Humilhar o PT paulistano é o sonho da direita que teme Lula em 2022.

O PT/Lula tèm 23% de apoio na capital paulista. Achar que as pesquisas de hoje refletem o que vai acontecer no dia da eleição é erro gigante.

Bruno Covas está no segundo turno. Russomano, França, Boulos e Jilmar brigam pela segunda vaga. Está tudo em aberto. Lula é Jilmar, porque Lula é PT. O PT é o maior partido da esquerda do Brasil e o grande adversário da direita liberal e do bolsonarismo.

(Aliás, se os progressistas, “figurões”, intelectuais e militantes do PT que estão nessa campanha anti-Jilmar estivessem engajados na candidatura que Lula apoia talvez já estivéssemos mais próximos dos 10%).

A propósito, é feio bancar o ciriominion – que vive de pedir ao PT que abra espaço, se abstenha de disputar para que Ciro possa nos salvar indo ao segundo turno.

Quem tem voto popular é o PT. É Lula. Se há alguma possibilidade da esquerda ir ao segundo turno é com Jilmar. O resto é um misto de ansiedade, ingenuidade e certo elitismo (“esquerda cool”).

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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Julian Rodrigues

Julian Rodrigues, professor e jornalista, mestre em ciências humanas e sociais, é militante do movimento de Direitos Humanos e LGBTI. Idealizador da Frente Parlamentar LGBT, foi coordenador LGBT do governo Haddad e criador do Transcidadania.