Julian Rodrigues

25 de abril de 2020, 19h21

E viva Márcio Marins!

Bem antes do antirracismo e da defesa da liberdade religiosa se tornarem temas centrais no movimento LGBTI, Márcio já fincava bandeiras e abria espaços

Arquivo Pessoal

Márcio partiu em uma sexta-feira particularmente turbulenta – mais confusa do que o habitual, nesses tempos obscuros, de pandemia e neofascismo. Quase não tivemos um minuto para saber que ele se foi e parar para celebrar sua vida.

Márcio Marins, querido de verdade, esse conheci em 2004, em um evento do movimento nacional LGBT realizado em Curitiba. Amizade à primeira vista. Nunca soube direito como um carioca (ou fluminense), preto, gay, carnavalesco foi parar na branca e fria Curitiba. Mas, o fato é que o seu sorriso fincou raízes e fez diferença na capital paranaense.

Doçura e firmeza. Rememorando tantas vezes que estivemos juntos, talvez sejam essas as duas características mais marcantes. Personalidade forte, capacidade de organizar as coisas concretas, de fazer acontecer.

Bem antes do antirracismo e da defesa da liberdade religiosa se tornarem temas centrais no movimento LGBTI, Márcio já fincava bandeiras e abria espaços. Carnavalesco, cenógrafo, ativista de direitos humanos, preto, viado. Foi um dos fundadores e organizadores da Parada LGBTI de Curitiba.

Candomblecista, não só tinha orgulho de sua ancestralidade e religiosidade, mas atuava diariamente contra a discriminação religiosa. Em suas redes sociais, reivindicava seu Orixá, Jagun. E diariamente enfrentava o racismo estrutural, num ambiente bem adverso.

Márcio atuava política e artisticamente. Local e nacionalmente. Sem perder suas raízes Riodejaneirenses, a bicha “causou” na capital paranaense – simultaneamente também foi voz forte e terna em conselhos nacionais, discutindo políticas públicas, questionando as políticas autoritárias de segurança pública, levando ao Planalto Central o ponto de vista e as demandas das pretas, pobres, LGBTI de todo Brasil.

Na minha condição de ateu empedernido e nem um pouco fã de Carnaval, me comovia a forma ao mesmo tempo altiva e pluralista com a qual Márcio trazia a visibilidade das tradições religiosas de matrizes africanas e também exercia sua paixão artística, carnavalesca, artesã.

Mesmo debilitado, não parou de trabalhar e militar. Com tanta gente ruim por aí, é muito triste ter de dar adeus tão precocemente (ele nasceu em 1972!) a um serzinho tão especial como nosso Márcio Marins.

A nós, que ficamos, por aqui mais um pouco, uma tarefinha: lembrar e celebrar a vida do Márcio.

Tristeza adicional é que os rituais fúnebres não poderão ser feitos conforme sua religião, em virtude da pandemia. Tomara que ele esteja certo – eu errado – e sua alma/espírito apenas tenha feito uma passagem para outra dimensão.

Mas, em qualquer caso, que possamos sempre cultivar a memória e recordar afetos, feitos, ensinamentos dos que por aqui passaram e nos tocaram tanto, como esse militante, que não veio aqui a passeio.

Um beijo, Márcio!

Julian Rodrigues é professor, jornalista, ativista do movimento DH e LGBTI, e amigo de Márcio Marins.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.


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