Julian Rodrigues

23 de março de 2019, 10h45

Laura, Manu e a maternidade

Ao percorrer o país lançando seu livro, Manuela D’Ávila nos convida a refletir sobre feminismo, resistência, política e maternidade

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Manuela D’Ávila tem 37 anos. Comunista; é mãe de Laura, madrasta do Gui, jornalista, mestre em Políticas Públicas – foi vereadora em Porto Alegre, deputada estadual no Rio Grande do Sul, deputada federal e candidata a vice-presidente do Brasil.   Atualmente roda o país autografando seu livro, “Revolução Laura”. Na introdução da obra, Manu afirma que não pretende fazer “uma ode à maternidade, nem um debate teórico sobre criação com apego ou sobre todos os limites impostos às mulheres que criam seus filhos e os amamentam”.

Antes de tudo, é preciso dizer que o livro é uma delícia: impecavelmente editado, diagramado e ilustrado, compila textos esparsos, crônicas e reflexões, cartas, poemas, posts, desabafos.  O livro é uma sistematização dos escritos da gestante/mãe Manu, os registros dessa mulher extraordinária, desde sempre política, deputada federal aos 26 anos (com imensos 272.000 votos), estigmatizada como a “musa do Congresso” – como se sua beleza a definisse.

Em 2018, Manuela, que já era a mãe da Laura, foi pré-candidata à presidência da República pelo PCdoB e, posteriormente, candidata à vice, na chapa de Fernando Haddad (PT). Laura esteve em 19 estados, acompanhando sua mãe. A autora conta como a decisão de viajar com sua filha impactou não só a forma como a partir daí foram organizadas suas atividades de candidata, mas também a discussão pública dessa situação inusual. Certa vez, uma jornalista lhe indagou: “Por que você leva a Laura contigo? Porque sou a mãe dela; fosse o pai, levaria também, você não?”.

“Em uma sociedade marcada por papéis tão consagrados de gênero, [tenho] a consciência de que eu poderia ser muito feliz não sendo mãe”; eu sempre quis ser mãe sem consciência do que isso significava para a mulher, estava impregnada dessa ideia de que toda mulher adulta e realizada é mãe (a gente reproduz essa cultura sem perceber).

Manu não tem medo de expor e problematizar as diversas faces, mesmo parecendo contraditórias, do tornar-se mãe, sem abrir mão de seu papel público. Manuela, assim, tem dado uma imensa contribuição ao feminismo ao visibilizar o tema da maternagem.

Ao ler o livro, ficamos sabendo dos ataques reais e virtuais que extremistas de direita operaram contra Manuela D’Ávila. Fake news, perseguição, difamação, agressão, não faltou nada.

Entretanto, eis um tema desafiador trazido pela militância e pelo livro da Manu –  presente desde pelo menos Badinter (1), que desnaturalizou a maternidade, historicizando o que se constituiu como mito idealizado do amor materno, problematizando a imposição da reprodução e do cuidado dos filhos como função exclusiva das mulheres. Tais questões sempre foram objeto de tensão no campo do feminismo.

Manu chama a atenção para a urgência de se reinventar a maternidade garantindo a autonomia plena das mulheres, com todos os seus direitos sexuais e reprodutivos (da contracepção à interrupção da gravidez, da vivência da lesbianidade, da bissexualidade ou da poligamia). Do direito de não se casar ou ser mãe, sem automaticamente serem alvejadas por estigmas e brutais pressões sociais. Ou, por outro lado, garantindo a possibilidade das mulheres optarem por uma desencanada e bem resolvida maternidade, agora reconstruída, ressignificada. E sem também que tenham então de sofrer outro tipo de pressão e questionamento, como se ao optar pela maternidade se instituísse uma incompatibilidade entre a construção da carreira profissional e a manutenção da autonomia de cada mulher.

Manuela faz questão de enfatizar publicamente que é possível ser feminista e mãe. Que não há contradição entre ser uma mulher cisgênero-heterossexual e defender os direitos da população LGBTI; que é possível defender o direito ao aborto seguro e legal – e ao mesmo tempo denunciar a violência obstétrica, lutando pelo parto humanizado.

“Revolução Laura” afirma em alto e bom som que “o feminismo é o contrário da solidão”. Reconhece, entretanto, que “ser mãe exaure, é cansativo”. Em um dos recados mais lindos escritos no livro, Manu meio que resolve tudo: “O mundo, filha, nada menos que o mundo”.

(1)Um amor conquistado – O Mito do Amor Materno; Elizabeth Badinter

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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