Julian Rodrigues

05 de fevereiro de 2020, 11h41

Movimento LGBTI chora: Fernanda Benvenutty era uma daquelas imprescindíveis

Julian Rodrigues: "Morre uma das principais referências do movimento LGBTI brasileiro; travesti paraibana fez história e deixou legado de lutas"

Julian, Carlos Magno, Cristovam Fernandes e Fernanda Benvenutty durante Parada Gay – Foto: Arquivo Pessoal

Não me lembro do momento exato de quando a conheci. Sei que foi no início dos anos 2000 e do governo Lula. Eu era assessor parlamentar e militante do setorial LGBT do PT. Havia idealizado a Frente Parlamentar pela Livre Expressão Sexual e o I Seminário LGBT da Câmara (em 2003). Atuava na ABGLT e Fernanda, na Antra – também na ABGLT e no PT.

Foi amor à primeira vista. [Aliás, difícil encontrar um ser humano que tenha conhecido e convivido com Fernanda e não a admirasse].  Alta, imponente, carismática, acolhedora, com o melhor  humor do mundo e o sotaque mais charmoso.

Orgulhosamente travesti,  foi fundadora, em 2002, da Associação das Travestis da Paraíba (Astrapa). Ícone e uma das principais dirigentes da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexo (ABGLT).  Militante do Partido dos Trabalhadores, era técnica em enfermagem, líder comunitária e carnavalesca.

Antes  mesmo do termo existir, Fernanda sempre  se destacou por ser “lacradora”. Era convidada para 11 de cada 10 eventos LGBT Brasil afora. Uma educadora antes de tudo. Sua oratória e carisma cativavam, provocavam, formavam militantes – em audiências diversas. Mas não se enganem: não havia  gratuidade  ou superficialidade em suas falas. Ela aliava conteúdo e forma, reflexão, humor e capacidade de comunicação.

Não há política pública de promoção da cidadania e dos direitos humanos da população LGBTI construída nas últimas duas décadas que não tenha tido a participação ativa de Fernanda Benvenutty. Aliás, nunca entendi direito como ela conseguia conciliar seu trabalho no setor público (enfermeira concursada) com seu protagonismo e presença constante nos espaços nacionais.

Pelo menos desde 2006, Fernanda foi figurinha carimbada: esteve presente em tudo quanto é conselho ou grupo de trabalho governamental que formulou política pública para a população LGBTI. Assertiva e debochada, transitava em todos espaços. Uma das poucas lideranças que era reconhecida como interlocutora ao mesmo tempo pelo movimento de travestis e transexuais, pelas lésbicas, pelos gays, pelos acadêmicos e pelos gestores públicos. Nunca construiu barreiras. Tinha opiniões fortes – entretanto, só fazia pontes. Humor e afeto eram suas marcas registradas.

Em 2008, convivemos muito. Éramos membros da comissão nacional organizadora da I Conferência LGBT, um marco histórico. A liderança de Fernanda Benvenutty naturalmente levou-a a ser indicada para abrir a Conferência, representando toda população de travestis e transexuais. Linda, de vermelho, fez uma fala impactante. “Os homens que saem conosco para ter relações sexuais são os mesmos que nos matam”. As fotos de Fernanda com Lula e Dona Marisa se tornaram icônicas, símbolos das conquistas LGBTI.

Só sei que Fernanda seguiu ocupando espaços e ajudando a construir políticas públicas. Foi do Conselho Nacional de Saúde, participou do GT de Segurança Pública, ajudou a construir os protocolos do Ministério da Saúde relacionados à saúde trans e ao processo transexualizador. E muito mais.

Sempre me impressionou sua capacidade de formulação, elaboração, síntese – acompanhando a evolução do debate político e acadêmico sobre travestis e transexuais. Não era uma teórica, pesquisadora universitária –  não escrevia.  Contudo, foi  desde sempre uma intelectual popular – orgânica do movimento social e da esquerda. Inteligência rara. Me lembra Lula nisso (guardadas as proporções).

Fernanda reformulava seu pensamento, sem nunca renegar suas origens ou identidade. Era travesti, mas era mulher. Problematizava e navegava por  todas polêmicas que atravessaram anos a fio o movimento de pessoas trans – antes e depois da teoria queer, digamos assim. Cada fala dela era um chamado e uma aula. Um troço impressionante.

Referência nacional, Fernanda nunca deixou de atuar no seu pedaço, na sua  João Pessoa. Carnavalesca, presidia a escola de samba do bairro (Unidos do Roger) – cujo samba enredo de 2020 é em homenagem a ela (lindo, por sinal)!

Fernanda foi candidata a vereadora e deputada estadual, bem votada, mas sem conseguir se eleger. Uma apaixonada e aguerrida petista, construtora do setorial LGBT do Partido. Disputas locais a levaram a se filiar ao PSD, partido pelo qual disputou as eleições de 2016.

Embora a trajetória de Fernanda Benvenutty já seja tema de vários trabalhos acadêmicos, muitas lacunas precisam ser preenchidas. Anos atrás, propus a ela que fizéssemos um livro de memórias e reflexões, registrando sua trajetória e a de Keila Simpson (outro ícone do movimento de travestis e transexuais). Arrependo-me de não ter insistido nessa ideia. Fica o desafio: há que se  biografar com carinho e rigor nossa Fernanda.

Fernanda adorava viajar.  Daí que sempre nos encontrávamos em eventos nacionais do movimento ou em espaços governamentais de participação social. Ela adorava uma Parada LGBT. A última vez que nos vimos foi nas vésperas da Parada de São Paulo, ano passado. Já estava debilitadinha. Grudei nela e conversamos um tempão. Contou-me da jornada dura de luta contra o câncer e das dificuldades de acessar o SUS – política pública que defendeu e ajudou a construir a vida toda. Foi ali nossa despedida, sem que eu soubesse, embora intuísse.

Tanta coisa demais para contar sobre essa figura. Muitas delas “impublicáveis”.

Fernanda, empoderada desde sempre, ensinou muitos de nós a lidar de forma livre, desencanada e leve com o próprio corpo e sexualidade/identidade de gênero. Uma vanguardista nata.

Dou um exemplo: ao mesmo  tempo em que foi uma das grandes defensoras do reconhecimento do “nome social” e da identidade de gênero de travestis e pessoas trans, no dia a dia brincava e manejava levemente sua condição. Tirava sarro do seu nome masculino de registro, cunhado lá naquele interior da Paraíba, em 1962. Conseguiu, contudo, mudar formalmente seu registro civil no RG – um gostinho especial, tenho certeza.

Essa merda de câncer levou Fernanda cedo demais. Ela queria viver até este Carnaval – é homenageada no enredo de sua Escola. Pediu que se fossem destacá-la, que o fizessem em vida. Não deu tempo, todavia.

Foi sepultada com dança e muito samba. Nada mais justo. Lindo  funeral e enterro, com muita gente – do povo chorando e celebrando sua vida. Fernanda era mãe adotiva de dois filhos.

Como ateu e existencialista, admiro, agora,  ainda mais minha amiga. Porque o que vale mesmo são as coisas que fazemos, concretamente,  para melhorar o mundo. E o legado que deixamos.

Fernanda Benvenutty deixa saudades e um grande exemplo. Deixa inspiração e realizações. Fica em nossa memória sentimental subjetiva e coletiva-social.

[E que nos coloquemos a registrar e estudar sua trajetória e pensamento].

Fernanda Benvenutty, presente!

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum

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