Julian Rodrigues

02 de Maio de 2020, 14h07

Não se nasce homem, torna-se homem, por Julian Rodrigues

Luis Fernando Prado Uchoa, contando histórias reais, nos convida a conhecer o universo dos homens trans

Simplesmente Homem: relatos sobre a experiência cotidiana de homens trans, de Luiz Fernando Prado Uchôa

Sim, somos uma sopa de letrinhas cada vez mais complexa – e elas não param de se multiplicar: get to use it.

Somos plurais (por isso nossa sigla varia conforme a visão teórico-política de cada organização, militante ou pesquisador).  

Nessa dinâmica de transformação contínua no interior do ativismo LGBTI – que luta pelos direitos civis, direitos sexuais, pela liberdade de gênero, pelo reconhecimento da diversidade e por políticas antidiscriminatórias – um dos segmentos que se organizou mais recentemente é o dos homens trans.

Talvez a maior parte da população possui pelo menos algum conhecimento sobre as travestis e mulheres transexuais (Rogéria e Roberta Close foram fenômenos de midiáticos por longos anos). O mesmo não acontece no caso dos homens trans (identidade cujo processo de construção é bem mais novo). A despeito da grande visibilidade de figuras midiáticas como Thammy Miranda e Tarso (ex-Tereza) Brant, predominam o desconhecimento e estranhamento (mesmo em setores mais informados) sobre a população de homens trans.

Sou daqueles que não só compreendem como é difícil, de verdade entender o sistema sexo-gênero, a diferença entre orientação sexual e identidade de gênero, mas também sou dos que acreditam que é tarefa do movimento social e da universidade é divulgar os acúmulos e conceitos – comunicando de forma didática, ampla, acolhendo. Ao invés de falar difícil, “cancelar” e constranger, devemos incidir, educar e conquistar os corações e mentes.

Ninguém é obrigado a saber que identidade de gênero não é a mesma coisa que orientação sexual. Nossa cultura heteronormativa associa automaticamente as expressões/performances de gênero à orientação sexual (e também às práticas sexuais).

O menino visto como afeminado é considerado necessariamente gay (e passivo), uma “menininha”. Se, por outro lado, uma garota é lida como masculinizada, a conclusão automática é a de que se trata de uma “sapatão” (ativa, à procura de meninas delicadas, submissas e sexualmente passivas). Só que a vidinha concreta nossa de cada dia é real, de viés e bem mais degradé.

Inclusive dentro da militância LGBTI ainda é muito presente a percepção hegemônica acerca da relação mecânica entre expressão/performance de gênero e orientação/prática sexual. Até outro dia nem mesmo a bissexualidade era reconhecida/compreendida no interior do movimento.

Não são só os “leigos” que reproduzem o senso comum, portanto.

Querem um exemplo? Boa parte do ativismo e da comunidade LGBTI não superou o essencialismo – ensinado até por Lady Gaga, aquela ideia: I was born this way. Ou seja, predomina um complexo jorgeamadiano, a síndrome de Gabriela: Eu nasci assim, eu cresci assim.

[Gente boa do céu: a gente não nasce com sofisticados chips programados certinhos, capazes de definir detalhadamente como desenvolveremos nossa sexualidade muito menos as formas como nos construiremos como sujeitos e nos sentiremos por toda uma vida]

Bem, se nem nós ativistas entendemos isso direito, imaginem então o desafio que é explicar para multidões coisas do tipo: a desconstrução do binarismo de gênero e das identidades estanques ou a problematização do gênero em si.

E, mais hard ainda, como problematizar de forma compreensível a noção intuitiva, primária, onipresente de que existe uma  divisão  biológica, natural – ou determinada por deus – (supostamente determinante e imutável) que produz machos e fêmeas (homens e mulheres) antes mesmo do  feto virar bebê e sair da barriga da mãe?

Mulheres e homens transexuais?

Voltando ao que nos interessa aqui.

A maioria da população   é composta por pessoas cis gênero – simplesmente cis (aquelas que se identificam com seu sexo biológico).

Já as pessoas trans (ou transgênero, transexuais) são as que foram designadas com determinado sexo/gênero no nascimento, mas constroem um sentimento interno profundo ou seja, um senso pessoal sobre seu corpo (que pode envolver modificações da aparência, vestimentas, modos de falar) que não corresponde às expectativas e padrões relacionados ao sexo/gênero biológico.

Pessoas transexuais reivindicam reconhecimento social, pertencimento a um gênero distinto daquele que lhes foi atribuído. Reparem: pessoas trans podem ser homo, hetero ou bissexuais.

Não confundir identidade de gênero com orientação sexual. Há mulheres transexuais lésbicas e homens trans gays, por exemplo. (Ou seja, indivíduos que nasceram com pênis, construíram-se com mulheres e têm atração afetivo-sexual por outras mulheres; ou pessoas que nasceram com vagina, se reconhecem como homens e gostam de se relacionar com outros homens – deu pra entender?)

Simplificando: mulheres transexuais são aquelas pessoas que “nasceram com pênis”, mas se reconhecem como garotas. São mulheres com pau (a maioria, entre as que não querem ou não conseguem fazer a cirurgia de reconstrução genital).

Homens trans são indivíduos que no nascimento foram designados como mulheres. Mas em seu processo de desenvolvimento constroem/reivindicam uma identidade social masculina. São homens com buceta.

Se a homofobia, o machismo e transfobia são marcas indeléveis na vida das travestis e mulheres transexuais (que têm corpos biológicos masculinos e iniciam a vida socializadas como homens), imaginem o tamanho das pedras no caminho das meninas que se descobrem meninos e começam a reivindicar o direito de fazer sua transição de gênero.

Machismo, violência, lesbofobia e transfobia misturadas/potencializadas – em um sistema patriarcal/heteronormativo que treina todas pessoinhas que vem ao mundo com útero e vagina para se adequarem a uma vida inteira de submissão.

Daí que é muito importante mesmo contribuir par visibilizar, apoiar a luta dos homens trans. O ativismo organizado deles é recente no Brasil: fizeram seu primeiro Encontro Nacional em 2014 (para efeito de comparação: foi em 1980 que aconteceu o primeiro EBHO – Encontro Brasileiro de Homossexuais).

Houve na última década avanços importantes em termos de articulação, visibilidade, mas com incipientes progressos em termos de políticas públicas.

Simplesmente homem

Simone de Beauvoir, em 1948, na sua obra feminista canônica (O segundo Sexo), escreveu uma frase que se tornou paradigma: “não se nasce mulher, torna-se mulher”.

Ora direis, portanto, ouvi vozes: também não se nasce homem, torna-se homem.

Parece um truísmo, mas não é.

Ideia chave para abrir uma seara de questionamentos e reflexões. O fortalecimento da luta feminista pede, na minha opinião, a desconstrução das masculinidades hegemônicas, sobretudo da masculinidade tóxica.

 Igualdade entre mulheres e homens só se alcançará quando constituirmos outros modelos, outros jeitos, parâmetros – novas masculinidades. Machos de todos os tipos, cores, formas.

O ativismo dos homens trans tem contribuído demais nesse sentido.

São caras de buceta, – machos com peito (ou não), caras heteros, gays, ou bi – com ou sem barba – musculosos, gordinhos ou magrelos. Cutucando lugares comuns, práticas sexuais automatizadas e rótulos toscos.

Gritando por reconhecimento, exigindo reconhecimento e alargando fronteiras (inclusive dentro do próprio movimento LGBTI) a comunidade transmasculina vai ganhando força dia a dia – e tornando o mundo um pouquinho melhor.

Não deveriam ser tão limitadas, rudes, violentas, opressoras as possibilidades e os jeitos de   virar homem, né? Tornar-se trans não deveria ser um processo tão difícil. Esse é o pano de fundo de Luís Fernando Uchoa em seu livro: “Simplesmente homem”.

Jornalista, professor, homem trans e militante, Uchoa transformou o trabalho de conclusão de sua graduação num livro acessível, leve e necessário.

A partir de depoimentos detalhados, da história de vida de homens trans, Luís Fernando montou um livro com seis capítulos – seis contos/relatos/crônicas.

Ao fazer a trans recriação daquelas trajetórias, o autor enuncia e contorna biografias. De maneira simples e direta, torna acessível um pouco do que é o universo dos garotos transexuais, suas dores, descobertas e superações.

Cada capítulo tem como base uma história real, estilisticamente quase disfarçada de conto crônica, roçando a ficção. Em certos momentos parece reportagem – há informação salpicada, entremeada, entrelinhada em cada um dos “causos” que Luís nos conta.

Não é livro teórico nem relato de pesquisa acadêmica – algum leitor desavisado em busca de rigor conceitual ou aprofundamento científico se frustrará certamente.

Também não se trata de um manual ou cartilha introdutória ao tema da transmasculinidade, embora encontremos um glossário ao final da edição.

“Quem não se comunica, se trumbica”, frase do Chacrinha que já virou clichê antigo, porém cada dia um pouco mais protuberante.

Pois, então, “Simplesmente homem” vem, assim, em boa hora – porque busca se comunicar. Sem elitismo ou cacoetes só compreensíveis em bolhas.

Boas reportagens necessariamente contam com boas fontes: mas não se tornam excelentes se não tiverem também saborosas histórias, com gente real. Uchoa faz isso, desenha personagens para trazer-nos conhecimento, didática e carinhosamente.

Simplesmente Homem: relatos sobre a experiência cotidiana de homens transLuiz Fernando Prado Uchôa. Metanoia Editora – São Paulo: 2020


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