Julian Rodrigues

04 de dezembro de 2019, 23h50

Nem a direita vai defender direitos LGBT nem o mercado vai distribuir antirretrovirais

Julian Rodrigues: “A centro-direita e a direita viraram extrema direita e bolsonarizaram-se, aberta ou envergonhadamente. Fortalecem os discursos racistas, machistas, discriminatórios, tudo em nome de um programa econômico ultraliberal de Paulo Guedes”

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Uma resposta a Fernando Holiday

O vereador paulistano do MBL (filiado ao DEM), Fernando Holiday, 23 anos, negro e gay, publicou um artigo na Folha de São Paulo, no último dia 3 de novembro, com o seguinte título: “A direita e os LGBTs: uma abordagem necessária”.

Entusiasmado com um curso que fez nos EUA, a convite do Departamento de Estado – ele mesmo se entrega – Fernando, autointitulado “liberal”, se dispõe a dar lições de como “a direita” brasileira deveria tratar o tema LGBT.

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O MBL, só pra lembrar, é aquela organização que impulsionou o golpe de 2016, exigiu o fechamento da exposição artística Queermuseu em 2017 e apoiou o capitão de extrema direita nas eleições de 2018. Fernando Holiday é o moço que apresentou, em 2019, um projeto de lei que permite a internação psiquiátrica compulsória de mulheres grávidas, caso seja contestado que a paciente tem “propensão ao abortamento ilegal”.

Holiday e o MBL são ultraconservadores, estão no campo da extrema direita e flertam com o neofascismo. Nunca fizeram nem ao menos aquela linha pseudo-simpática: “conservadores na economia, liberais nos costumes”. Mesmo considerando que estão em evolução, tentando se distanciar do neofascismo bolsonarista e construir uma identidade menos extremista, seria excesso de boa vontade tratá-los como “liberais”, ou como “direita” (civilizada) – tipo um Rodrigo Maia, digamos assim.

Em sua excursão aos “estates” patrocinada por Trump, Holiday se impactou com a “forma pela qual a direita americana tem começado a tratar assuntos envolvendo a população LGBT; alguns grupos têm se formado no Partido Republicano (dentre os quais se destaca o já antigo Log Cabin Republicans)”.

“Welcome” ao beabá do debate político e da história do movimento LGBT!

Apesar do vínculo com o movimento socialista desde suas origens no final do século 19 e início do século 20, e de majoritariamente se associar ao progressismo, o movimento LGBT sempre foi plural, com tendências diversas. Especialmente nos EUA, o movimento organizado, além de ter fortes relações com o mercado, nunca deixou de ser disputado pelos conservadores, pelo Partido Republicano.

Diz Holiday: “discussões sobre como incentivar o terceiro setor e a iniciativa privada na prevenção ao suicídio e no atendimento de jovens que sofrem com a automutilação por conta de sua orientação sexual, sobre políticas para o tratamento de portadores de HIV ou, ainda, formas de se prevenir o retrovírus […] têm contado com a participação de republicanos nos EUA”.

Pois é, vereador. Seu modelo de sociedade tem como base juntar gente para implorar aos ricos que se sensibilizem e ajudem as bichinhas, sapas, travas, bi, pessoas trans doando um dinheirinho para alguma campanha contra o preconceito. Ou, então, juntar umas empresas boazinhas para doar coquetel pro povo infectado pelo HIV.

Ora, ora… Nos EUA, não há saúde pública universal! E muito menos políticas públicas de enfrentamento à homofobia e transfobia.

Aqui, nesse brasilsão, temos um negócio chamado SUS. Sistema Único de Saúde, o maior sistema público do mundo. E um programa de enfrentamento à epidemia de HIV/AIDS que é referência há 30 anos – e propicia tratamento universal gratuito a todas pessoas infectadas pelo vírus.

Mais ainda. Desde 2004, o Estado brasileiro promove um conjunto de políticas públicas que combate a discriminação e impulsiona os direitos humanos das pessoas LGBT. Ações de governos, do poder público, sem ninguém precisar implorar migalhas de empresários “filantropos”.

Décadas atrasado, portanto, o tal Fernando. O movimento LGBT no Brasil conquistou, talvez ele não saiba, nos últimos 40 anos, direitos civis, reconhecimento jurídico e políticas públicas.

Holiday reconhece que o movimento LGBT (majoritariamente de esquerda) tem credibilidade, porque atua concretamente, acolhendo pessoas em depressão, expulsas de casa, etc. Adviria daí sua legitimidade. Mas qual a receita que o vereador oferece à “direita”?

Para ele, é preciso “deixar claro aos LGBTs que não somos inimigos, que respeitamos suas liberdades e suas famílias; contudo, precisamos demonstrar isso com ações”.

Aí a conta não fecha. Nos últimos anos, diminuiu em muito os setores de centro, centro-direita e direita que não aderiram à homofobia militante. Dá pra contar nos dedos. Sobraram o Cidadania (ex-PPS), a cúpula do DEM (não o conjunto de seus líderes), parte do PSDB, figuras isoladas no MDB e um ou outro personagem alocado em siglas conservadoras.

A centro-direita e a direita brasileira, em sua maioria, apoiam, hoje, o bolsonarismo. Formam uma coalizão com os cristãos fundamentalistas, protagonistas de uma verdadeira cruzada antigênero, cujo foco é disseminar pânico moral, objetivando destruir qualquer política pública que afirme a igualdade entre mulheres e homens e a diversidade sexual.

A centro-direita e a direita viraram extrema direita e bolsonarizaram-se, aberta ou envergonhadamente. Fortalecem os discursos racistas, machistas, discriminatórios, tudo em nome de um programa econômico ultraliberal de Paulo Guedes. Na real, não dá pra saber com que setores “de direita” o Fernando finge tentar dialogar.

Holiday acusa a esquerda (ele trata, absurdamente, o conjunto do movimento LGBT como um braço da esquerda) de manipular o sofrimento dessa população e transformar todos em “militantes fervorosos” movidos pelo ódio.

A desfaçatez não encontra limites. Quem tem sido vítima dos discursos de ódio, da intolerância e da violência crescentes são as mulheres, os/as negros/as e as LGBT. De onde esse sujeito tirou a ideia de que somos nós que propagamos ódio? Mentiroso!

Ao terminar seu artigo, o vereador do MBL diz que não foi eleito em razão de sua sexualidade e que a mesma também não foi um empecilho. Claro, ele se elegeu justamente explorando o nicho reacionário – que apostou em um gay antipolíticas LGBT – e em um negro inimigo das políticas de promoção da igualdade racial.  Aí fica  bem mais fácil, né.

Bem medidas as coisas, Fernando Holiday faz um grande favor, especialmente ao ativismo LGBT e ao movimento negro ao deixar nítido: não há essência queer que nos torne anti-heteronormativas; nem uma essência negra a automaticamente forjar consciência antirracista.

Há que se disputar ideias, valores, visões de mundo.

Ou seja: é tarefa de todes rebeldes/inconformades enfrentar o machismo, o racismo, a homofobia/transfobia – e o capitalismo (que estrutura todas essas opressões). Para isso, vamos precisar de coalizões – em um amplo bloco democrático-popular.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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