Julian Rodrigues

31 de outubro de 2019, 17h58

Nem loucura, nem só bagunça: o bolsonarismo tem método, estratégia e programa

Julian Rodrigues diz: "Governo Bolsonaro não é apenas ultraliberal; seu núcleo duro é neofascista, sem compromisso com as instituições do regime burguês 'democrático'"

Foto: Reprodução/YouTube

Transcorridos já 12 meses desde a vitória de Bolsonaro, já temos muitos elementos para compreender o que foi o verdadeiro tsunami reacionário que possibilitou a inusitada vitória do ex-capitão.

Entretanto, de maneira geral, o campo democrático-popular, a base social e eleitoral progressista, ainda segue atônita, confusa e de certa forma desmobilizada diante da avalanche destrutiva que é o governo Bolsonaro.

Pela primeira vez na história temos um governo que é ao mesmo tempo ultraliberal, superprivatista antissocial, antitrabalhista e autoritário, que trabalha para limitar as liberdades democráticas.

Na cruel ditadura militar houve, na maior parte do tempo, crescimento econômico e fortalecimento do Estado. Nos governos Collor e FHC, auge das políticas neoliberais, tirou-se direitos do povo e se enfraqueceu o Estado, mas não havia ataque às liberdades democráticas.

Bolsonaro reúne traços autoritários do período ditatorial com uma política econômica ainda mais antipovo do que a dos tucanos nos anos 1990. O pior de dois mundos.

Junte-se a isso uma forma totalmente nova de governar, que segue o ritmo da campanha eleitoral: crises diárias, confusão e verborragia, briga com os próprios aliados, ministros aloprados, ataques indiscriminados não só à esquerda, mas ao Judiciário, a chefes de Estados de outros países, e até à Rede Globo!

Isso tudo gera falsas impressões. De que o governo está enfraquecido (muitos se apressaram há alguns meses a lançar a palavra de ordem do impeachment); de que Bolsonaro “não tem projeto” (essa é de doer, porque é o governo que mais rápida e agressivamente tem implementado seu programa); de que a família presidencial é amadora, ridícula e não sabe o que faz; de que o “centro” ou o mercado ou mesmo a Globo já abandonaram o barco bolsonarista.

Nada disso. Por trás da aparente loucura há uma estratégia nítida. O governo Bolsonaro não pode ser avaliado pelos parâmetros usuais.

Por um lado, via Paulo Guedes, Bolsonaro estabeleceu sua adesão às propostas mais radicais do mercado (reforma da Previdência, trabalhista, entrega das empresas brasileiras, destruição da saúde e educação públicas). Com o apoio de Rodrigo Maia (o liberal “civilizado”) todo esse programa ultraliberal vem sendo executado com vigor e rapidez.

Enquanto assim for, torcendo o nariz ou assobiando, olhando de lado ou fazendo muxoxo, passando pano ou criticando alguns exageros – as classes dominantes brasileiras e o imperialismo seguem e seguirão apoiando Bolsonaro. Globo e seus arroubos oposicionistas inclusos.

Estado de Exceção e neofascismo

Aparentemente, já há consenso no campo progressista de que houve um golpe que se iniciou em 2016 com a deposição de Dilma; continuou (principalmente por meio da atuação da Lava Jato) com a prisão de Lula e culminou nas eleições de 2018 (e a manipulação gigante via fake news). O pacto constitucional de 1988 foi rompido: as classes dominantes decidiram excluir o campo popular da disputa pelo governo federal.

Se é assim – e considerando o cenário internacional de ascensão de regimes de extrema direita – não faz sentido caracterizar o governo Bolsonaro como mais um governo conservador “comum”.

E muito menos continuar organizando a atuação da esquerda nos mesmos moldes do período pré-2016. Vivemos sob um Estado de exceção, que pode evoluir, a depender do núcleo duro do bolsonarismo, para algum tipo de regime autoritário.

Bolsonaro e seu clã lideram uma corrente neofascista no Brasil. Não têm compromisso com as instituições da burguesia, com o sistema “liberal-democrático”. Operam em uma chave disruptiva, antissistêmica, calcada na permanente mobilização de segmentos reacionários, principalmente homens de extratos médios, brancos, do sul-sudeste.

Bolsonaro, como deputado federal, não era adepto do liberalismo. Contudo, aderiu ao programa ultraliberal, encarnado por Paulo Guedes, porque sabia ser essa condição sine qua nom para ser aceito pelas classes dominantes.

Foi aí que o bolsonarismo selou a aliança com banqueiros, grande mídia e quetais. O candidato dessa turma era Alckmin (derrubaram a Dilma para colocar o PSDB no governo). Não deu certo e, pragmaticamente, embarcaram na canoa do ex-capitão.

Mas é uma aliança instável, porque o bolsonarismo é uma tendência neofascista.

Olavo de Carvalho é, de fato, o ideólogo de Bolsonaro e seu clã.  Não há nenhuma utilidade analítica ou política em qualquer rotulação do ex-astrólogo como maluco, caricato, irracional, delirante. Carvalho organizou nos últimos anos uma base social neofascista no Brasil. E é ele quem aponta as diretrizes por onde caminhará o bolsonarismo.

Carluxo é o operador das redes sociais, que vocaliza as orientações de Olavo – é uma espécie de “vanguarda” do bolsonarismo. Eduardo é o líder das relações internacionais e porta-voz público das posições deles. Bolsonaro, o chefe supremo, vai se equilibrando, fazendo algumas mediações imprescindíveis à sobrevivência imediata de seu governo.

Foi Olavo de Carvalho quem orientou a ruptura com os setores menos radicalizados do Exército. Foi ele que antecipou o racha com o PSL – defende um partido bolsonarista puro-sangue, que siga o líder incondicionalmente.

Em 25 de outubro, o guru bolsonarista tuitou o seguinte: “ou o presidente age AGORA para fechar os partidos pertencentes ao Foro de São Paulo e fazê-los pagar pelos crimes inuimeráveis (sic) cometidos por essa organização, ou eles o derrubarão em seis meses”.

Anteontem, ao discursar na Câmara, Eduardo Bolsonaro acenou com repressão policial se as esquerdas quiserem repetir no Brasil o que está acontecendo no Chile. E ainda fez menção ao golpe militar, dizendo que se houver radicalização a história poderá se repetir.

O vídeo postado por Bolsonaro do leão cercado por hienas (do STF ao PSOL), que foi apagado depois, mais o “surto” da madrugada quando o presidente baba ódio e ameaça diretamente a Globo, mais a manipulação direta da PF e da PGR para sua defesa. Tudo isso indica uma disposição crescente do bolsonarismo à ideia de ruptura progressiva com o atual regime.

Bolsonaro não está “se isolando”. Pelo contrário. Está reafirmando seu comando e seu programa.

Instiga a mobilização permanente de sua base político-social. Aprofunda o discurso antissistema, contra tudo e contra todos.  Optou para governar com o apoio de 20% a 30% da população. Uma aprovação orgânica, militante, que o permite disputar permanentemente a agenda política.

Mais ainda: Bolsonaro reafirma seu comando firme sobre as instituições do governo: Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República. Fez Moro de office-boy de luxo.

E agora?

Nada indica que haja apoio no andar de cima para algum tipo de fechamento do regime (autogolpe, intervenção militar etc).

Por outro lado, não podemos subestimar nem a força nem o projeto de radicalização autoritária do bolsonarismo.

As contradições vão se agudizar porque o desemprego, a miséria, o desalento crescem – sem nenhuma perspectiva de melhora em 2020.

Ao mesmo tempo, há um deslocamento de setores que apoiaram o bolsonarismo para uma posição mais “centrista”. Sem, contudo, abandonarem o programa ultraliberal de Guedes. Contradição principal.

Todavia, é preciso compreender que o neofascismo não está comprometido com um mínimo de liberdades democráticas, ainda defendidas pela burguesia, pelos mercados, pela grande mídia – que, contudo, rasgaram sem dó a Constituição e interditaram o campo popular ao fazer de Lula preso político.

Nosso desafio é transformar o crescente repúdio ao governo Bolsonaro em mobilização social. Sem subestimar o inimigo ou precipitar palavras de ordem. Nem nos acomodarmos ao calendário eleitoral, nem achar que a queda do governo é questão de meses.

Acumular forças para, nas eleições de 2020, derrotar fragorosamente o bolsonarismo e abrir um novo cenário.

De imediato, fortalecer a campanha #LulaLivre.  E pela anulação de suas sentenças injustas.

Lula rodando o Brasil em 2020 pode mudar qualitativamente a correlação de forças, apontando um norte palpável para o povo: #LulaPresidente: por emprego, direitos, dignidade.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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