Julian Rodrigues

20 de março de 2020, 20h26

Notas sobre o coronavírus – e a gigante crise mundial

Em face do grave momento por qual passa o país, Julian Rodrigues faz um diagnóstico dos caminhos que o campo progressista deve seguir

Jair Bolsonaro durante entrevista sobre o coronavírus - Foto: Reprodução

Novo cenário internacional

1)Ainda é muito cedo para prospectar o impacto e os desdobramentos que a atual crise terá sobre a economia e a política internacionalmente. É necessário evitar duas armadilhas simultâneas: tentar realizar previsões peremptórias, e, por outro lado, continuar agindo como se não houvesse elementos qualitativamente novos. Nem catastrofismo, nem paralisia. Nem pânico, nem excesso de otimismo. “Análise da realidade concreta em cada situação concreta” (Lênin), somada ao “otimismo da vontade e pessimismo da razão” (Gramsci).

2)A gravidade da pandemia Covid-19 se somou e se sobrepôs ao estouro da bolha econômica (algo que vinha sendo previsto por alguns analistas). Houve a tal “tempestade perfeita”. Duas grandes crises acontecem simultaneamente em todo o mundo. Não é possível saber o tamanho do buraco, mas está nítido que os efeitos são devastadores sobre a economia – recessão global e, sobretudo, para os mais pobres em todo o mundo. O cenário é similar ao de uma guerra – talvez o mais grave desde a II Guerra Mundial. Ou pior: porque nas guerras se geram empregos e há demanda.

3)Abre-se uma janela  de oportunidades. O debate político-econômico se inclina à esquerda. Aporte de recursos estatais, renda mínima, estatização de empresas, controles mais rígidos sobre a atividade econômica. O receituário neoliberal é colocado em xeque, na prática, na Europa e nos EUA.  Ao mesmo tempo, as massas percebem a importância de sistemas públicos de saúde, universais, gratuitos. E das ações coordenadas de governos em todos os níveis. Só o Estado salva!

4)Mesmo Trump toma medidas tipicamente keynesianas/social democratas – que distribuem recursos diretamente aos americanos, permitem ao governo encampar hospitais privados, adiam cobranças de hipotecas.

5)Por outro lado, o pacote anunciado pelo presidente dos EUA vai direcionar muito mais recursos para empresas e bancos. A briga colocada é: o Estado deve priorizar o bem-estar das famílias ou o lucro das grandes corporações e do sistema financeiro (como fizeram na crise de 2008).

6)A geopolítica se move mais rapidamente. A crise estourou no momento em que a Arábia Saudita baixou o preço do petróleo (para afetar Rússia, Venezuela), junto com a reação mais radicalizada da China contra o protecionismo de Trump. Pela primeira vez, o governo chinês ameaçou parar de financiar a dívida pública dos EUA.

7)Considere-se também a guerra de narrativas e teorias de conspiração em curso. A extrema direita mundial acusa a China de criar e manipular o vírus. E um porta-voz do Ministério das RI da China diz que EUA plantaram o vírus em Wuhan.

8)Macron suspendeu, na França, a reforma neoliberal da Previdência, e cogita  estatizar a AirFrance, enquanto a Itália anuncia estatização da Alitalia (que já vinha em crise).

9)China anuncia o fim dos novos casos da doença. Foi um show de coordenação e iniciativa estatal, assistido globalmente. Cuba envia ajuda humanitária à Itália, tem um dos mais eficazes medicamentos até hoje descobertos contra o vírus – e ainda assiste ao governo Bolsonaro implorar pela volta dos seus médicos.

10)Em uma situação como essa, cresce muito o espaço para programas, propostas, teorias, ideias antiliberais, intervencionistas, keynesianas, estatistas, socialistas e comunistas – por que não?

11)Trump desesperado por uma vacina coloca a CIÊNCIA no topo, novamente. Toda discurseira irracionalista, terraplanista, conspiratória do neofascismo bolsonarista, trumpista cai por terra na primeira globalista crise.

12)Estado, políticas públicas, ciência, regulação do mercado, solidariedade retornam como valores imprescindíveis. É o melhor momento para atacar o egoísmo neoliberal, o antiestatismo, as ideias privatistas. Mas, sem luta político-ideológica, o neoliberalismo pode atravessar essa crise como o fez em 2008 – enchendo as burras dos banqueiros e financistas, sem alterar as bases do modelo.

13)As mudanças não são automáticas, dependerão da força da classe trabalhadora, da esquerda, dos socialistas e progressistas em forjar alternativas, discursos e força política para reverter a hegemonia capitalista/ultraliberal/neofascista.

Ultraliberalismo e recessão no Brasil

14)Desde a guinada liberal do governo Dilma/Levy em 2015, amargamos a maior estagnação-recessão contínua da história econômica brasileira. O pibinho de 1,1% em 2019, mais disparada do dólar, fuga de capitais, baixos investimentos, desmonte das políticas sociais já apontavam cenário de crise na economia brasileira. Isso tudo somado ao aumento do desemprego, da miséria, da degradação da vida da população trabalhadora.

15)A crise mundial dupla (bolha estourada + pandemia) agrava em níveis espetaculares esse cenário que já era sombrio. As quedas sucessivas na Bolsa de Valores já resultaram em derretimento de mais de R$ 1,5 trilhão em 2020. O dólar estourou para o patamar de R$ 5.  E no Brasil, além da dupla crise mundial há os sinais de futura – ou possível – crise institucional.

16)A primeira reação de Guedes foi dobrar a aposta nas reformas pró-mercado e de desmonte do Estado. Apresentou, em 12 de março, a privatização da Eletrobrás, a reforma administrativa e o tal Plano Mansueto (de mais arrocho fiscal) como respostas econômicas ao coronavírus. Algo tão absurdo que constrangeu inclusive neoliberais de carteirinha.

17)Ato contínuo, foi “caindo a ficha” deles lá sobre o tamanho da crise. O PT fez propostas iniciais bem interessantes. Nossos deputados, bem como os do PSOL fizeram um bom debate. E foi ficando nítido, a partir das ações dos governos em todo o mundo, que são necessárias ações vigorosas do Estado para minimizar o impacto econômico.

18)Assim, a contragosto, o governo teve que apresentar  medidas positivas, embora supertímidas e insuficentes, como o pagamento de R$ 200 a autônomos já cadastrados no SUAS,  atraso no recolhimento do Simples e o reforço do Bolsa Família (que vinha sendo sucateado).

19)Por outro lado, o governo autorizou na geral a redução de salário e jornadas, ao invés de proibir demissões. Como contrapartida, anuncia que os atingidos por essas medidas poderão acessar 25% do seguro-desemprego.

20)A realidade objetiva vai impondo uma agenda ao governo totalmente distinta daquela que propagam. Não há como enfrentar uma crise desse tamanho sem liberar dinheiro, sem por o governo federal para agir, sem aumentar as redes de proteção social, sem investir no SUS, sem GIRAR os próprios pressupostos das políticas ultraliberais.

Fora Bolsonaro?

21)Grande parte do bloco progressista não conseguiu, até hoje, chegar a  uma definição política detalhada e complexa sobre a natureza, a composição, o programa e o modus operandi do bolsonarismo. Não é consenso a caracterização do “estado de exceção”, nem a dupla natureza (ultraliberal e neofascista) do governo.

22)Não somente setores de nossa base social/eleitoral, mas muitos dirigentes políticos e parlamentares ainda trabalham com a percepção de que Bolsonaro (e sua família) são “loucos”, “despreparados”, “idiotas” etc. Subestimam a organicidade e racionalidade do projeto neofascista e seu amplo apoio internacional. Ignoram, sobretudo, a derrota que sofremos no campo cultural-ideológico-comunicacional e a surra que o bolsonarismo vem aplicando ao campo progressista no terreno da comunicação. É uma postura arrogante e desinformada – que não entendeu ainda o nem novo quadro internacional muito menos as guerras híbridas.

23)Uma das consequências dessa leitura equivocada sobre  Bolsonaro e sobre o momento político é o fato de, mais ou menos a cada três meses, surgir (em nossas bolhas) um ruído pró-impeachment. Como se houvesse correlação de forças para isso. Ou pior, como se a destituição de Bolsonaro – operada pelas elites liberais – fosse algo positivo em si. Como se um governo Mourão/Maia/Toffoli/PIG trouxesse melhorias para a vida do povo e melhores condições para a luta democrática.

24)É fato que Bolsonaro e seu núcleo operam pelo fechamento do regime, progressivamente. Mas essa ainda não é a opção das classes dominantes, da mídia burguesa, do imperialismo ou dos “liberais”.

25)Como bem caracterizou Jorge Branco: “O governo Bolsonaro ingressa em um período de crise de legitimidade. Sua relação com a maioria do Congresso Nacional é instável, já tendo sofrido derrotas em projetos estruturantes para sua política econômica. Mesmo sua relação com o grande capital é menos sólida do que no início de seu governo, haja vista a evasão de investimentos. Contudo, isto não significa que Bolsonaro esteja à beira do desmoronamento. Sua estratégia política está assentada em três grandes movimentos: uma aproximação cada vez mais subordinada ao governo estadunidense de Donald Trump; uma ampliação do poder dos setores militares de ultradireita expressos no núcleo de generais palacianos; e um apelo mobilizatório cada vez maior à sua base social orgânica de direita”.

26)OU SEJA, Bolsonaro pode estar se transformando em um “pato manco” – perdendo o comando do processo político geral, autocondenando-se às lateralidades. Não tende a cair, mas tende a mandar menos. A menos que se reinvente e se recoloque no cenário político nos próximos dias.

27)Houve, é fato,  uma mudança significativa na conjuntura. Parece que Bolsonaro errou feio, pela primeira vez. Irritou muitos setores de sua própria base ao desprezar seguidamente os efeitos do coronavírus, retardar a adoção de medidas governamentais, comparecer à manifestação de 15 de março. E o clã segue no mesmo ritmo radicalizador: Eduardo Bolsonaro criou crise diplomática grave com a China.

28)Os panelaços, ainda tímidos, em 17, 18 e 19 de março, evidenciam um desgaste de Bolsonaro. O povão, contudo, segue desconfiado, frustrado, assustado – ainda fica na muda, mas cada vez mais insatisfeito. Ao contrastarmos a atuação desastrada de Bolso com a postura de outros governantes, como os tucanos Bruno Covas e Doria, por exemplo, ficam ainda mais nítidos seus erros políticos.

29)A consigna “Fora Bolsonaro” é legítima, expressão da repulsa de amplos setores ao governo atual. POR OUTRO LADO, não está na ordem do dia. E muito menos deve ser centro da atuação do PT e da esquerda – parlamentar ou social.

30)Essa coisa de “interdição” de Bolsonaro é levar a política para o nível da patologia. Um troço regressivo. E vira e mexe, algum quadro nosso cai nessas bobagens demagógicas – de Haddad, a senadores do PT ou deputados do PSOL. Pedir impixo agora é algo totalmente “fora da casinha”.

31)Em primeiro lugar, Bolsonaro ainda não se inviabilizou, nem há operação no “andar de cima” para derrubá-lo. Em segundo lugar, queremos derrotar não Bolsonaro, mas o bolsonarismo. O programa autoritário e neoliberal. Isso só acontecerá com LUTA DE MASSAS e VITÓRIAS ELEITORAIS. Não vai ser com impixo capitaneado por Rodrigo Maia.

32)Tão equivocado quanto levantar a bandeira do impeachment nesse momento (sem apoio da maioria da classe trabalhadora) é apostar todas as fichas em uma “Frente Ampla” com Huck, Maia e setores burgueses “limpinhos”,  para as eleições de 2020 e de 2022. Perguntamos antes: haverá eleições democráticas em 2022? Tão errado quanto puxar o impixo agora é apostar na normalidade do calendário eleitoral, ou pior, em alianças com a burguesia neoliberal.

33)O quadro político está muito mais aberto que antes. Nos interessa agora disputar programa, ideias, rumos e ações para o país. Disputar a necessidade de medidas amplas de proteção dos pobres e estímulo da atividade econômica. E mais ainda: DEFESA DO SUS.

34)Nunca houve uma crise como essa. Temos que nos colocar à altura do momento político e aproveitar as brechas abertas para fortalecer o socialismo, o campo democrático-popular, a esquerda e o PT.

O que fazer?

35)Em um momento como esse, fica mais gigante o buraco em nossa prática-tática e estratégia de comunicação. Somente na quinta, 19, Lula se pronunciou – com uma live de 15 minutos, não divulgada antes de ir ao ar. Não há memes, pequenos vídeos, estratégia de rede para disseminar as boas propostas do PT. Uma coisa impressionante. Os vídeos institucionais do PT são abaixo da crítica.

36)É preciso iniciar imediatamente uma operação de guerra para construir o “partido digital”, com foco no whatsApp, produção de memes, vídeos, micro-target, TI, manipulação de big data etc e tal. A comunicação do PT e da esquerda está ainda no início dos anos 2000. Nesse cenário de quarentena, GIRAR TUDO PARA O “PARTIDO DIGITAL”.  As pessoas estarão confinadas, ainda mais sedentas de informação e orientação.

37)É hora de detalhar nossas propostas a favor do povo, da economia popular, do crescimento econômico, do SUS. Martelar ideias-chave como o fim da EC 95 (congelamento de gastos), aumento do Bolsa Família, transferência de renda com um salário mínimo para todos os trabalhadores informais, crédito para todo mundo, não cobrar contas de água e luz, construção de hospitais de campanha – aumento de leitos de UTI, e tantas outras medidas que já estão sendo pensadas.

38)O foco é MAIS ESTADO. MAIS SUS. DEENDER OS EMPREGOS. MAIS POLÍTICAS PÚBLICAS. MAIS DINHEIRO ESTATAL NA ECONOMIA. PROTEGER OS MAIS POBRES.

39)Reorganizar nossas atividades políticas. Quarentenas não são férias. Aproveitar a crise para socializar entre nós o uso das ferramentas digitais de reuniões online, a leitura e estudo de textos mais densos, as articulações políticas não presenciais.

40)“Primeiro salvamos o povo, depois a economia” (LULA).

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


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