Julian Rodrigues

18 de dezembro de 2019, 10h41

Sangramos demais e choramos pra cachorro: o ano 1 da era bolsonarista

Bem feitas as contas acostumamo-nos, e vamos nos adaptando. Porque é preciso sobreviver, antes de qualquer coisa. E resistir. Não estamos entendendo tudo. Indignaremo-nos todas as  manhãs, de novo a cada dia

(Foto: Mídia Ninja )

Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte. Ano passado eu morri muito. Morremos juntos. E agora faz um ano que o impensável chegou e se instalou.

Balanço provisório: estamos mais pobres. Sob qualquer ângulo, o país é muito pior do que antes. Muito mais violento, muito mais desigual, muito menos soberano.

Impuseram-nos uma nova era.  Um regime hiper-capitalista autoritário pós-moderno que testa novas formas de dominação e opressão.  Os gorilas fardados e marginais de todo tipo arregimentaram uma turma rançosa e fascistoide mais os chefes religiosos que vivem de explorar a fé do povo.  E atraíram os pseudo-liberais limpinhos: nossos burgueses financistas, modernosos farialimers nunca tiveram lá muito compromisso com rituais democráticos, convenhamos.

Elza grita, porém: tem um Brasil que soca, outro que apanha, por que são tantas lutas inglória que a história qualquer dia contará.  A gente sonha mais alto que os drones  – emicidamente.  E respiramos com o novo cinema novo nordestino a nos bacuraulizar.  Só que os abutres rondam e bicam, tirando pedaços de vidas, de sonhos, de cidadania.

Necrogoverno. Necropolítica. Os limites do possível e do razoável explodidos. Barbárie e irracionalismo.

Toda e qualquer uma política bolsonarista é pró-morte. Dos discursos de ódio contra mulheres, pobres, pretos, LGBT ao maior corte de direitos sociais e trabalhistas da história brasileira – passando pela propaganda das armas até ao estímulo para que as polícias executem ainda mais do que já fazem.

Essa avalanche regressiva não é peculiaridade nem extravagância brasileira. O neoliberalismo em crise mostra sua cara deformada, sem qualquer maquiagem: é incompatível com sistemas políticos que resguardem liberdades democráticas.  Pense na Bolívia. A Bolívia não é aqui. A Bolívia é aqui.

Haja textão xingando  o presidente e xingando quem o apoia de imbecil, e reclamando do terraplanismo e cobrando posição de quem apoiou o Bolsonaro e está sendo prejudicado por medidas específicas do governo.  E o cara lá, com seus 30% de apoio – cada vez mais sólidos.

Uma bomba midiática por dia. O absurdo é nosso café da manhã. Muito mais que fake news – trata-se de profunda disputa filosófica-ideológica-cultural.  Querem nos convencer não só de que a terra é plana, mas de que toda cultura e ciência produzidas desde o século XVI não serve para nada. Vamos combinar que são muito ousados!

Mas já morremos no ano passado. Cansados sim e demasiado perplexos. Todavia, firmes – meio desempregadas, meio empobrecidas, meio preocupadas. É verdade que o cara  – e sua família e seus ministros  desconstituíram muitos  direitos. Conquistas que vieram das lutas pela redemocratização. E coisas que ganhamos lá atrás, com Getúlio.  Entregaram muita riqueza para o capital internacional. Privatizaram até o saneamento básico.

Bernie continua na lida, projetando um futuro diferente no coração do império. Corbyn caiu, mas não  a derrota não  é nem de longe tudo isso que propagam. Evo foi massacrado, o golpe foi horroroso na Bolívia –  e a Frente Amplió perdeu por bem pouquinho no Uruguay.  Maduro resiste, entretanto – e haverá constituinte no Chile!  Alberto/Cristina ganharam, enterrarão o neoliberalismo e chegam   para fazer a diferença. Viva Argentina!

Lula foi libertado. Saiu daquela solitária fria do Moro/Dallagnol em Curitiba.  Pode parecer pouco? Não é não. Em um ano como esse, ver Lulão  de chapéu panamá curtindo férias com sua amada em Paraty  e falando pras massas é coisa boa demais.

Bem feitas as  contas acostumamo-nos, e vamos nos adaptando. Porque é preciso sobreviver, antes de qualquer coisa. E resistir. Não estamos entendendo tudo. Indignaremo-nos  todas as  manhãs, de novo a cada dia.

Em um mundo muito mais violento, quando combater o fascismo ceifava milhões de vida, Drummond tirava do bolso  uma flor com náusea, mas rosa esperançosa para o povo.

O mundo não acabou em 2019 –   tampouco  o Brasil. Embora o  ano tenha sido dominado pelas desgraceiras neofascistas.

Entre as ruínas  surgem outras mulheres e homens, com o hálito selvagem da liberdade. A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais, está em cada manifestação, em cada minúsculo gesto de inconformismo.

Nunca foi fácil. Sobretudo aqui – nessa   terra estruturada pela herança da escravidão e pela violência das elites dominantes.  Mas nós derrotamos a ditadura militar, fizemos a bela constituição de 1988 e governamos o país  olhando para as maiorias – com Lula e Dilma. Haveremos, pois, de superar o bolsonarismo.

Não vai ser amanhã.  Não nos afobemos não, que nada é pra já – Chico ensinou.

Mas será muito antes do que eles pensam. Porque nosso lado é dos que lutam bravamente. Todo dia.

Pelo  justo, pelo bom e pelo melhor do mundo (como Olga).


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