Julian Rodrigues

30 de junho de 2019, 14h56

Ser de esquerda é defender o fim da “guerra às drogas”

Para Julian Rodrigues, “só tem um jeito: regulação restrita e legalização de todas as drogas. Ou a esquerda defende isso, ou continuaremos a reboque do bolsonarismo no tema de segurança pública”

Foto: Mídia NINJA

Apontar a hipocrisia e as contradições do governo Bolsonaro é sempre muito bom.

O episódio dos 39 kg (não eram 40) de cocaína que entraram na Espanha pelo avião da comitiva precursora do voo presidencial é gravíssimo. Mostra como o tráfico internacional de drogas está instalado na cúpula do atual governo.

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Isto posto, é triste acompanhar a reação de uma galera grande da esquerda. Ao invés de apontar o cinismo e a conivência da turma bolsonarista com o crime organizado, muita gente adere ao senso comum, estigmatizando as drogas “ilegais” e seus usuários. Eu, mesminho, em mim, recebi um monte de memes associando cocaína à direita e maconha (ou a cachaça) à esquerda.

Que bobagem!

Milhões de pessoas, no Brasil e no mundo, tomam ecstasy e ácido, cheiram pó, fumam crack e maconha, se drogam com uma plêiade de fármacos (com receita dos amigos psi). Mais outros muitos milhões ainda bebem pesadamente e fumam tabaco para caramba.

Já passou da hora da esquerda se apropriar do debate antiproibicionista. Vamos conhecer as reflexões do movimento negro, da juventude, dos direitos humanos?

A criminalização de certas substâncias que alteram o estado de consciência (enquanto outras são liberadas) é uma estratégia do capitalismo. E do racismo estrutural. Um jeito de estigmatizar, prender, matar pobres pretos jovens periféricos.

E de aumentar o lucro das operações de produção e distribuição internacional das drogas.

Esqueçam o PCC! Se libertem do Datena! Quem comanda o tráfico de drogas é gente que fala três ou quatro línguas, gente rica, articulada, perfumada, branca, que circula e maneja o sistema financeiro internacional.

PCC e outras “organizações criminosas” são compostas de meros gerentes, braços operacionais, ralé. Pobres pretos (mais espertos) que funcionam como a tropa de combate territorial dos grandes criminosos.

A saída é uma só.

Nova política de drogas. Com regulação restrita da produção, distribuição e consumo de TODAS substâncias. Do tabaco ao crack.

Trazer o mercado ilegal para a normalidade institucional.

Cobrar imposto. Cadastrar os pontos de venda e até os consumidores (para acompanhamento de saúde). No caso da maconha: produção nacional em larga escala, com subsídio para agricultura familiar (antes que os EUA dominem o mercado mundial).

No caso da cocaína, mais complexo, algum acordo internacional de importação. Com laboratórios nacionais e estatais (Fiocruz, por exemplo) para o refino. Distribuição em farmácia para usuários cadastrados.

Passou da hora da esquerda enfrentar esse debate. O proibicionismo é intrinsecamente capitalista e reacionário.

Experiências internacionais, já temos muitas. Do Uruguai à Califórnia, passando por Portugal e Canadá.

Cessar o extermínio da juventude negra e o hiper-encarceramento. Parar os homicídios em massa. Discutir seriamente uma política de segurança pública.

Só tem um jeito: regulação restrita e legalização de todas as drogas. Ou a esquerda defende isso, ou continuaremos a reboque do bolsonarismo no tema de segurança pública.

Chega de moralismos e hipocrisia. Liberdade individual, redução de danos e enfrentamento, de verdade, ao crime organizado. Legalizar as drogas é regular o capitalismo!

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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