Julian Rodrigues

21 de outubro de 2019, 18h44

Um bom Congresso: mas é preciso muito mais

Leia na coluna de Julian Rodrigues: Etapa paulista do VII Congresso do PT garante debates de qualidade, entretanto o conjunto das resoluções e composição da nova direção ainda estão aquém do que exige a conjuntura

Foto: PT Paulista/Divulgação

19 e 20 de outubro. Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. São Bernardo do Campo, São Paulo. Mais de 900 pessoas (delegados, convidados, observadores, pessoal da organização) reunidas para debater as diretrizes que orientarão o PT (no Brasil e em São Paulo). E, claro, eleger o novo presidente e o novo diretório estadual. Trata-se da etapa estadual do VII Congresso Nacional do PT, que aconteceu, simultaneamente, em todos os Estados brasileiros.

O Congresso Nacional petista será entre 22 e 24 de novembro – etapa final de um complexo processo de debates e eleições de direções, que começou no último dia 8 de setembro, quando 351.000 filiados foram às urnas, em todo o país, escolher as novas direções do PT em suas cidades e votar nas chapas de delegados para os Congressos Estaduais e Nacional. Novos presidentes estaduais, novos diretórios estaduais, novo presidente nacional, novo diretório nacional e a política do Partido em cada estado e no Brasil são definidas nesses Congressos.

Os números são impressionantes. Em São Paulo, participaram cerca de 50 mil filiados.

Independente das críticas consistentes ao processo de eleições diretas em si – e das inúmeras distorções, irregularidades e fraudes comprovadas -, é preciso registrar a imensa capilaridade, a representatividade e a força organizativa da “instituição” PT. Com todos problemas e lacunas, ainda somos o instrumento de luta mais poderoso da classe trabalhadora brasileira.

O chamado PED (as eleições diretas para direção) sempre foi um tema controverso. Critica-se a escolha por uma concepção liberal de democracia, a introdução de métodos de eleição das classes dominantes nos processos internos do Partido, com abuso do poder econômico, o esvaziamento dos debates, a opção por um partido de filiados/eleitores (e não de militantes orgânicos), a generalização das fraudes. O método do PED, introduzido em 2001, nunca foi consensual.

Fato gravíssimo ocorreu dessa vez, o que potencializou demais as críticas à legitimidade do processo. A Executiva Nacional do PT se recusou a julgar os quase 500 recursos vindos dos Estados. Pior ainda, anulou decisões estaduais (como a da executiva paulista) que havia desconsiderado milhares de votos – comprovadamente frutos de irregularidades.

Essa mácula pairou sobre todo o evento em São Bernardo.

Habemos debates

Há tempos o PT paulista não fazia um evento tão bem organizado – tanto do ponto de vista estrutural como político. Tensões e dificuldades à parte, sobretudo no credenciamento, uma convergência de esforços permitiu o sucesso do evento.

Estrutura impecável, alimentação no local, hospedagem, pontualidade, plenário cheio. Congresso de verdade, com abertura, votação de tese guia, grupos que funcionaram direitinho, comissão de sistematização, debates das emendas, defesa das chapas, defesa das candidaturas à presidência, votação em urna e apuração rápidas. Tudo no horário, sem grandes impasses.

Fazia tempo que não tínhamos encontros estaduais com cara de encontro de esquerda mesmo, seguindo rito básico da tradição, com debate político assegurado.

Aprovamos boas resoluções como radicalização da oposição à Doria e Bolsonaro, importância de fortalecer as Macros, priorização de uma política de formação e comunicação, preparação do PT para as eleições de 2020, organização das mulheres, negros, juventude, LGBTI, pautar a transição ecológica.

Houve convergências fundamentais como o fortalecimento da campanha por “Lula Livre”, com todos direitos políticos, e preparar a jornada por Lula Presidente (para resgatar os direitos do povo e reconstruir o país).

Maioria demais ajuda pouco

800 delegados, 773 votantes.

A chapa do campo moderado (CNB) fez 60% dos votos. Essa acachapante maioria (contestações de fraudes à parte) impuseram uma dinâmica de “torcida organizada”. Embora compreensível, é um fenômeno despolitizante que, a despeito da postura e compromisso pluralista de muitos dirigentes da maioria, bloqueia um diálogo efetivo entre as diversas posições e campos do PT.

O balanço sobre a imobilidade da última direção torna-se quase tabu. Interdita-se uma análise realista da curva descendente da nossa força social e do nosso peso organizativo-político-eleitoral em São Paulo. Embora o mal estar seja generalizado, com um implícito reconhecimento da atual maioria de que não estamos bem.

O exemplo mais simbólico: o atual presidente do PT-SP, Luiz Marinho (que foi também nosso candidato a governador em 2018 – e obteve cerca de 12% – o mesmo percentual de votos que Eduardo Suplicy em 1986 ) não se dirigiu uma única vez ao plenário do Congresso (com exceção da saudação na solenidade de abertura).

Marinho é nosso candidato a prefeito de São Bernardo do Campo em 2020, com boas chances de vitória. A pergunta que todos fizeram e impactou muito (até mesmo a CNB) foi: como um candidato a prefeito em uma das principais cidades do estado vai conseguir coordenar, também, ao mesmo tempo, as campanhas do PT em todos municípios paulistas?

Faltou , ademais, um balanço de Marinho – e da atual maioria – sobre a gestão que se encerrou. O que pensam os companheiros e companheiras sobre a situação do PT-SP? O que foi bom? O que não avançou? Erramos em alguma coisa? Acertamos em tudo? Não faltou nada?

Marinho, candidato a reeleição, não apresentou ao Congresso nenhuma opinião sobre esses pontos. Nada, nadica, não falou no microfone.

A representatividade, legitimidade, enraizamento e força histórica do chamado campo majoritário (CNB) no PT nacional e, mais ainda no PT-SP são inquestionáveis. Mas, como nos ensinou o Tio Ben: “mais poderes trazem mais responsabilidades”.

Erros e acertos são de responsabilidade coletiva, mas não igualitária. Faltou um gesto de diálogo efetivo para recompor uma política para a nova direção.

As chapas

A chapa apresentada pelo Novo Rumo, Esquerda Popular Socialista, Democracia Socialista, Militância Socialista, coletivo Carlos Neder e coletivo Eloi Pietá teve 19% dos votos. Seu candidato a presidente foi Renato Simões. Terão 5 membros na Executiva.

A chapa da Articulação de Esquerda, cujo candidato a presidente foi Lício Lobo, obteve 3,5% dos votos e terá um representante na Executiva.

A tendência Avante nacionalmente se alinha com a esquerda partidária. Fez 10,5% dos votos, fará 2 ou 3 na Executiva. Surpreendentemente, Vilson Oliveira retirou sua candidatura a presidente e encabeçou a defesa de Luiz Marinho. Ponto fora da curva – se considerarmos o combativo posicionamento nacional do Avante, que conta com lideranças como Maria do Rosário, Fátima Bezerra e Marcelino Galo.

A Resistência Socialista fez 7% de votos e terá 2 dirigentes na próxima Executiva estadual. Já Simão Pedro, candidato da tendência a presidente, ampliou e conquistou 9% de votos. O perfil agregador de Simão e a consistência das propostas que apresentou foram apontados como causas desse crescimento.

Importante registrar que O Trabalho (que impulsiona o DAP), grupo trotskista da esquerda do PT, consolidou suas conexões com o campo moderado. Além de chapa e candidatos comuns com a CNB, O Trabalho chegou ao ponto de votar a favor do PED – contrariando todas suas posições históricas (o constrangimento era evidente na expressão facial de seus dirigentes). No ar, especulações sobre as razões objetivas desse giro radical.

Resistência Socialista

Fundada em março de 2018, a tendência Resistência Socialista (RS) teve 11% no PED. É a segunda força do PT, presente em todo Brasil.

Com uma plataforma nítida e consistente tese, a RS foi uma lufada de ar fresco no cenário partidário: combativa, propositiva, alegre, jovem, socialista, preta, feminista, libertária, comprometida com a luta social.

Em São Paulo, a candidatura Simão Pedro se diferenciou pela qualidade das propostas concretas apresentadas (renovação já, formação política, retomada das macros, comunicação em redes baseadas em dados, democratização do fundo eleitoral, transparência nas finanças).

A RS somou-se às forças críticas à atual maioria – e apoiou as propostas do Avante, e das chapas encabeçadas por Renato Simões e Lício Lobo. Mas não abriu mão de sua identidade – dialogando transversalmente com o conjunto do PT. Demarcando e apostando na construção unitária de um Partido a ser reorganizado.

A etapa nacional do VII Congresso precisa avançar muito mais. Muito.

Que a energia militante presente nos Congressos estaduais possa inspirar as delegadas e delegados que elegerão a nova presidenta (ou novo presidente) do PT.

Mas, sobretudo, que se impulsione um debate de qualidade, capaz de armar o Partido dos Trabalhadores.

Porque somos imprescindíveis na articulação e mobilização das forças progressistas brasileiras. Derrotar o bolsonarismo e reconstruir a democracia vai nos exigir um esforço imenso para renovar e reorganizar o Partido dos Trabalhadores. A hora é agora.

 

Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Resistência Socialista do PT e nem da Revista Fórum

Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum