Julinho Bittencourt

12 de dezembro de 2019, 15h51

A música caipira em quadrinhos, uma bela e inusitada obra de Yuri Garfunkel

Através de seu HQ, feito um poema épico, o artista nos mostra a dureza e aspereza do ambiente em que as canções foram criadas

Foto: Divulgação

A ideia é excelente e a sua realização melhor ainda. O HQ “A Viola Encarnada: Moda de Viola em Quadrinhos”, com roteiro e artes visuais do desenhista, músico e educador Yuri Garfunkel, é um trabalho esplendoroso, pra dizer o mínimo.

Baseado em temas sugeridos em mais de 80 canções do repertório caipira, o projeto contemplado pelo Programa de Ação Cultural (ProAC), acaba de ser lançado e já pode ser adquirido nas livrarias.

Com um toque onírico e, ao mesmo tempo, pinceladas um tanto impressionistas, o HQ ultrapassa todas as barreiras e estereótipos do gênero, pra se firmar como uma obra densa e detalhada sobre a cultura caipira.

Não espere ver mato verdinho, beira de rio, animais encantados e edulcorados. Tudo nele é noir, agreste. Carregado pela tristeza e emoção das obras, em momento algum o artista tenta lançar mão ou exaltar a singeleza e simplicidade das mesmas. Ao contrário disto, através de seu HQ, feito um poema épico, nos mostra a dureza e aspereza do ambiente em que as canções foram criadas.

Dividida em 10 capítulos, conforme as 10 cordas da viola caipira, que também lhes dão título, “A Viola Encarnada: Moda de Viola em Quadrinhos” retrata as aventuras dos amigos Vaqueiro e Violeiro em diversas situações recorrentes do cancioneiro caipira em viagens pelo interior do país.

As histórias são para serem vistas e lidas ao som das canções. Ou, ao menos, por quem tem uma razoável familiaridade com elas. De acordo com a apresentação do violeiro Ivan Vilela, um dos maiores deste Brasil repleto deles, trata-se de uma HQ muda. Ou instrumental, como ele prefere brincar. Não há balões de diálogos e as canções que aparecem como referência em algumas delas são apenas indicações das inspirações do autor.

E, por falar no Vilela, a sua introdução é uma obra à parte, que também vale cada palavra.

Mas voltemos ao HQ. Os traços são surpreendentes e suas sequências, que exigem toda a nossa atenção, nos levam a um mundo inusitado de cores em tom pastel, sobriedade e tensão. A musicalidade, quase imperceptível ao leitor incauto, aflora quanto mais nos arvoramos a mergulhar nas imagens.

Quando nos damos conta, as lendas das canções, seus desamores, dramas (que são enormes e insolúveis), enfim, toda a dramaticidade da canção caipira brasileira explode em suas páginas. Assim, personagens de modas como “As três cuiabanas”, de Carreirinho e Zé Carreiro se confundem com as esposas que disputam “Jorginho do Sertão”, de Cornélio Pires, sem que o autor disponha de nenhuma linearidade narrativa para tal.

As histórias que, ao longo dos séculos, a viola caipira nos ponteou através de seus tocadores, assumem um outro jeito que, algumas vezes parece homenagem. Em muitas outras, porém, vão além disto e nos oferecem o Brasil profundo visto e relido com outros olhos.

“A Viola Encarnada: Moda de Viola em Quadrinhos” é uma obra mágica, que, além de ser vista, nos levará de volta às canções, num ciclo de beleza sem fim.


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