quarta-feira, 30 set 2020
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A música de concerto com sabor popular do Ensemble Choro Erudito

Com uma formação inusitada, Ricardo Valverde (vibrafone), Wanessa Dourado (violino) e Marcos Paiva (contrabaixo acústico) misturam peças eruditas e populares

A formação é tanto ousada quanto inusitada. O nome do álbum dá a pista, mas o ouvinte carece investigar mais, muito mais: “Ensemble Choro Erudito”. Por trás dele estão três grandes artistas: Ricardo Valverde (vibrafone), Wanessa Dourado (violino) e Marcos Paiva (contrabaixo acústico).

O álbum, lançado em agosto de 2020, traz em seu repertório grandes choros, canções populares e peças eruditas, através de compositores mais difusos ainda:

“Brejeiro” (Ernesto Nazareth), “Ainda Me Recordo” (Pixinguinha), “Dança Eslava” (Dvorak – Opus 72 No. 10), “Aria (Cantilena)” das Bachianas Brasileiras de Villa-Lobos, “Implicante” (Jacob do Bandolim), “Dança Negra” (Camargo Guarnieri), “O Trenzinho do Caipira” (Villa Lobos) + “Trem Azul” (Lô Borges e Fernando Brant), “Velha Modinha” (Lourenzo Fernândez) e “Delicado” (Waldir Azevedo).

O objetivo do grupo, plenamente alcançado, é manter um diálogo entre a música de concerto com a música popular. Um desafio e tanto que o trio atinge de maneira discreta e profunda, se é que se pode definir assim.

O “Ensemble Choro Erudito” navega em águas tranquilas. Tudo é extremamente bem tocado, correto e, ao mesmo tempo, emocionado, suingado, mas sem pontas agressivas nem timbres extremos. Os instrumentos soam naturais e as melodias ganham grande intimidade com a execução dos músicos.

A desfaçatez sonora do grupo, que insiste em não se parecer com nada a que nos acostumamos ouvir, faz com que uma peça erudita como Dança Negra soe como Pixinguinha e, ao mesmo tempo, “Ainda me recordo” se insinue como um dos Choros de Câmara de Villa Lobos.

A proposital confusão de gêneros faz do álbum “Ensemble Choro Erudito” um belo produto híbrido onde mergulhamos em cheio na nossa formação étnica e cultural. Nem a Dança Eslava escapa à brasilidade da música urbana do início do século passado. O caráter sensual da melodia, marcadamente influenciada pela canção popular tcheca, nos transpõe para um mesmo baile transnacional com a interpretação soberba do trio.

Da mesma maneira, a melodia tão conhecida da Ária das Bachianas Brasileiras nº 5 ganha um acento mais staccato nos arpejos que, de maneira surpreendente, nos remete, mesmo que de maneira sutil, à dança de salão.

Mais surpresa ainda nos causa a fusão do Trenzinho do Caipira, melodia inspirada no folclore brasileiro, com o clássico do álbum Clube da Esquina, Trem Azul. O que era pra soar mais popular e relaxado ganha camadas sonoras bem estruturadas e é a interpretação que mais se aproxima da música de câmara contemporânea.

Ao final, Velha Modinha e Delicado compõe o quadro de um álbum que consegue junções raras de estilos, belezas e uma destreza musical tamanha.

Após ouvir “Ensemble Choro Erudito” resta o espanto pelos músicos conseguirem arrancar tantas novidades de peças, algumas delas ao menos, seculares. E, é claro, agradecer por música tão boa e bem executada.

Julinho Bittencourt
Julinho Bittencourt
Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.