Julinho Bittencourt

13 de abril de 2020, 12h37

A música de Morais Moreira, feita de sonhos e multidão, se prepara para voltar às ruas

O Brasil perde nesta segunda-feira, repleta de ansiedade, medo e tristeza, um de seus maiores artistas. Um músico construído a partir da nossa nacionalidade e aberto para o mundo

Foto: Divulgação

A primeira vez era adolescente e os Novos Baianos foram fazer show no ginásio do Santos Futebol Clube. Neste dia, lá pelos idos da década de 70, a cantora Baby Consuelo teve um de seus filhos e não cantou. Coube a Morais Moreira e Paulinho Boca de Cantor, ao lado do guitarrista Pepeu Gomes e dos músicos da banda, segurarem o espetáculo de maneira magistral.

Anos depois, já em carreira solo, mais uma dificuldade. Morais e o grupo A Cor do Som, liderado por Armandinho, filho de Dodô, do lendário Trio de Dodô e Osmar, tocaram outra vez na cidade praiana, desta vez no Cine Caiçara. Era um enorme local, para mais de mil pessoas, mas apareceram por lá apenas umas 15, entre elas eu e um amigo.

Morais entrou no palco, olhou para o público e exclamou: “tem pouca gente, mas é tudo gente boa”. E, a partir da frase, fez um show inesquecível de quase três horas, com canções suas do tempo dos Novos Baianos e várias novas, de seu então recém-lançado álbum solo que tinha, entre outros sucessos, “Pombo Correio”.

Muitos anos à frente, no meio da madrugada do Festival de Iacanga, Moraes segurou durante horas, apenas com a sua voz e seu violão, uma plateia encantada, que cantava com ele várias das suas canções.

Ainda mais adiante, já na década de 90, Morais cantou no Bar do 3, em Santos, um local para mil pessoas que a gente segurou durante um bom par de anos. O cantor chegou cedo, passou o som, conversou com todos, comeu e fez um espetáculo inesquecível, para uma casa lotada. Depois do show, que acabou no início da madrugada, Morais permaneceu por lá e conversou com todos que o procuraram, contou piadas, ouviu histórias e, só depois do último ir embora, foi para o hotel dormir.

Morais Moreira era, enfim, um exemplo de profissionalismo.

Filho musical de João Gilberto, soube como poucos misturar o suingue baiano ao rock e à música popular contemporânea. Eterno inventor, tinha uma criatividade infinita. Montou espetáculos, escreveu livros, compôs canções ora líricas, ora frevos clássicos que levantaram – e levantam ainda –multidões.

Se tivesse parado de cantar ao deixar os Novos Baianos, já teria a sua existência mais do que justificada. Mas ele prosseguiu, antenado com o seu tempo e gravou álbuns antológicos e, sobretudo, compôs para cantores, emplacou sucessos e alegrou o Brasil durante meio século de carreira.

Sua música tem um signo forte de modernidade que o levou a sempre ser regravado ao longo do tempo por artistas mais novos. Tanto com os Novos Baianos, que ensaiaram algumas voltas, quanto em carreira solo, Morais permaneceu renovado, de maneira tão forte e evidente, que é difícil acreditar, hoje, que ele tenha partido.

Morais era instantâneo, tinha urgência de vida e canção. Certa vez, num final de madrugada, passeando pelas ruas do Rio de Janeiro ao lado de João Gilberto, ouviu do amigo conterrâneo, após se espantar com a imagem de uma mulher com uma lata de água na cabeça: “Olha Morais, lá vem o Brasil descendo a ladeira”. A frase virou um de seus grandes sucessos.

A música de Morais era isso, feita de pequenas cenas brasileiras e seus personagens. Da nossa alegria e das nossas mazelas, tecidas sempre com tenacidade e esperança.

O Brasil perde nesta segunda-feira, repleta de ansiedade, medo e tristeza, um de seus maiores artistas. Um músico feito a partir da nossa nacionalidade e aberto para o mundo, sempre voando com suas próprias asas.

Morais se vai, mas fica a multidão, encolhida em casa e devastada pela sua ausência. Mas sempre aprontando a hora pra explodir novamente pelas ruas de Salvador e do mundo, com a sua música feita de sonhos.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum

#tags