Julinho Bittencourt

26 de março de 2020, 16h24

A série Grey’s Anatomy e o fim do sistema de saúde americano, como deseja Bolsonaro

Após os anos Trump, as mazelas da série médica americana deixaram de ser apenas amorosas ou de saúde para abordarem o total banimento do sistema dos pobres e imigrantes

Foto: Divulgação/ABC

A 15ª temporada da série médica americana Grey’s Anatomy termina com a sua heroína, Meredith Grey (Ellen Pompeo), cometendo um crime. Para atender uma criança que está com câncer, filha de um imigrante, ela frauda o seguro médico e troca o nome da paciente pelo de sua filha.

Em uma discussão prévia e confusa para nós, que contamos com um sistema único, os médicos discorrem sobre a cobertura do atendimento à criança. Ficamos sabendo que o pai, apesar de faxineiro, entra numa faixa salarial que não dá direito ao atendimento gratuito. Sabe-se, mais adiante que a criança tem câncer e o seu tratamento custará uma fortuna.

O caso, que se estende por vários episódios, com suas consequências invadindo a temporada seguinte, é um recado claro ao desmantelamento do sistema de saúde americano promovido pelo governo de Donald Trump.

Já na 16ª temporada – e aqui por diante o texto contém spoiler – Meredith Grey é julgada e, apesar de todos os seus prêmios e prestígio, é condenada a uma pena branda. Ela passa a fazer serviço comunitário, ou seja, catar lixo nas ruas.

Durante o trabalho, ela encontra várias parceiras condenadas e até mesmo policiais encarregadas que sofrem das mazelas deste mesmo sistema. É óbvio que ela continua a cometer pequenas ilegalidades para atender àquelas pessoas, da mesma maneira como fez com a criança.

Uma volta no tempo para lembrar que Meredith não agiu sozinha. Para operar a criança em nome da filha, ela envolve duas pessoas muito próximas: o eterno chefe Richard Webber (James Pickens Jr.) e seu melhor amigo, Alex Karev (Justin Chambers). Todos acabam demitidos do Grey Sloan Hospital e a heroína corre o risco de perder sua licença médica.

Karev e Weber, por sua vez, vão parar em um outro hospital, o Pac North. É um chiqueiro terrível, à milhas de distância do superequipado Grey Sloan a que o espectador se acostumou. Este é só mais um entre os tantos sinais que a série, que sempre acerta na correção política e no trato com as questões de gênero e étnicas, dá.

Meredith repete inúmeras vezes durante as últimas temporadas da série – os anos Trump – que o sistema está quebrado. Os dois médicos passam o inferno no novo hospital para conseguir atender minimamente pacientes sem possibilidades materiais.

A América, terra das oportunidades e dos sonhos de dez entre dez imigrantes dos países do entorno sul, se mostra na até então glamorosa série, um sistema em frangalhos, onde a única diferença para o nosso SUS é que por lá, apesar das mesmas mazelas, o sistema não é único e, tampouco, está aberto a todos.

E, para quem acha que todo esse blá blá blá é coisa de séries televisivas, lembro aqui o terrível caso de uma mulher, ocorrido em meados de 2018, publicado nesta Fórum, que teve fratura exposta ao ficar com as pernas presas no vão do metrô, em Boston, nos EUA.

Passageiros ajudavam a empurrar o trem para que ela conseguisse ser levada para a plataforma. Tremendo e chorando de dor, ela implorava para que não chamassem uma ambulância.

“Você sabe quanto custa uma ambulância?”, indagou a mulher, que repetia a todo momento que o custo poderia chegar a milhares de dólares.

Ao fim e ao cabo, nosso complexo de vira-latas vira do avesso em plena crise do coronavírus quando percebemos que, com todos os erros e dificuldades, o nosso Sistema Único de Saúde (SUS) atende a todos, independentemente de etnia, gênero, nacionalidade, condição social e demais diferenças.

Este mesmo sistema que o governo do presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido-RJ) pretende acabar, reduzindo ao máximo a atenção básica em saúde, dirigida exclusivamente para aqueles que não podem pagar, para que todos os demais sejam induzidos a buscar atendimento no mercado.

Exatamente como fez Trump por lá.


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