Julinho Bittencourt

04 de Maio de 2020, 09h48

Aldir Blanc, o adeus ao poeta de um país sem rumo

Aldir nos deixa com a beleza de seus botecos imundos, bordéis escuros, santos, orixás, campos de várzea, batucadas e crimes inconclusos

Foto: Arquivo

“Azar
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar”

Assim que foi lançada, em 1979, a canção “O Bêbado e a Equilibrista” teve a sua letra publicada em forma de anúncio no jornal O Pasquim e, pela primeira vez, foi chamada de “o hino da anistia”. Era eu então um menino mal entrado na vida, junto com a democracia brasileira.

Os versos de Aldir, acompanhados da melodia de João Bosco, nos empurravam pra rua de maneira vertiginosa. Eu, minha geração, os que vieram antes e os inúmeros que chegaram depois, devemos todos à dupla a fome de viver, o significado da esperança e do otimismo.

Maiores e melhores do que ninguém, souberam traduzir na linha tênue de uma canção o otimismo de então de todos nós brasileiros.

Aquele poeta às avessas sabia das coisas. Traduzia de maneira refinada e como poucos a vida sacana e malandra dos subúrbios cariocas, seus personagens, atitudes e sobressaltos. Aldir povoou nossa vida com detalhes inesquecíveis que vão desde o torturante “band aid no calcanhar” até as falsas louras com “sardas, sobrancelha feita a lápis, e perfume da Coty”.

Todos eles indicativos, muito mais do que qualquer pressentimento de deboche, de uma imensa manifestação de afeto e compaixão pelo povo desvalido e suas mazelas. Aldir falou por todos e com todos com erudição de psiquiatra e literato e faro de boêmio e artista.

Suas canções, sobretudo as com João Bosco, foram e serão para todo o sempre a trilha sonora de um país e de uma gente em busca de um prumo, de uma sorte mínima, uma tábua de salvação em um mar de ausências e fragilidades. Repletas de cenários desbotados, botecos imundos, bordéis escuros, santos e orixás divididos, campos de várzea, batucadas e crimes inconclusos, Aldir foi único em nos traduzir um país em eterna formação e degradação permanente.

Foi um poeta como poucos e um cronista ímpar. Perseguiu, alcançou e, de certa maneira ultrapassou, a linhagem e a verve de Noel, Wilson Batista e Geraldo Pereira. Seus malandros passaram pelo crivo da academia sem nunca ter perdido a natureza de seus versos.

Quase feito um cineasta, Aldir era capaz de produzir milagres em poucas palavras, como em “Vida Noturna”, vestida por um lindo samba-canção de João Bosco: “Acendo um cigarro molhado de chuva até os ossos, e alguém me pede fogo – é um dos nossos”.

O menino de então, capturado pela beleza e perplexidade do verso, se pergunta o que pode acontecer depois disso. E Aldir responde: “Eu sigo na chuva de mão no bolso e sorrio, eu estou de bem comigo e isto é difícil. Eu tenho no bolso uma carta, uma estúpida esponja de pó-de-arroz, e um retrato meu e dela, que vale muito mais do que nós dois”.

A tamanha beleza e engenhosidade dos versos parece ter se esgotado, quando o autor, de um fôlego só, ainda tem repertório pra mais e captura aquele moleque para sempre pelo resto de suas vidas: “Eu disse ao garçom que quero que ela morra, olho as luas gêmeas dos faróis, e assobio, somos todos sós, mas hoje eu estou de bem comigo, e isso é difícil, ah, vida noturna, eu sou a borboleta mais vadia, na doce flor da tua hipocrisia”.

A partir disto, passei e passamos todo o resto das nossas vidas querendo ser o Aldir ou, ao menos, algo que se aproxime da sua capacidade de traduzir a vida que víamos, vemos e acreditamos ser verdadeira.

Aldir nos deixa em um outono do século XXI, no auge de uma pandemia inédita, vítima do coronavírus. Um bichinho devastador, completamente diferente de tudo o que sempre lutou contra. Mas, ao mesmo tempo, estranhamente parecido.


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