Após 30 anos da campanha contra Lula e a favor de Collor, a própria Globo é alvo das regras que inventou

Ao manipular a edição do debate final, em 89, a emissora jamais imaginaria que também seria vítima da falta de democratização da mídia

Nesta segunda-feira (16) faz 30 anos do segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello. Naquele dia, após 25 anos de ditadura, o Brasil elegeria novamente um presidente da República.

De um lado, o operário Lula e de outro o “caçador de marajás”, ex-governador de Alagoas, filho de família tradicional, dona de, entre inúmeros outros bens, a retransmissora da Rede Globo no estado.

De um lado, o sonho de uma liderança popular forjada nas lutas sindicais e, de outro, o poder instituído.

Em outras palavras, as duas faces de um país historicamente dividido desde a sua colonização.

A favor de Lula havia o desgaste dos anos de ditadura, os artistas e intelectuais, o anseio da construção pelo novo, uma parte ínfima da igreja, a luta secular pelo fim da fome e da miséria.

Do outro lado, todo o resto, ou seja, a classe empresarial; as grandes corporações internacionais que operavam e ainda operam no país; os militares ainda, apesar de escondidos e envergonhados nos quartéis; as forças policiais; grande parte das lideranças religiosas e sobretudo, a grande imprensa.

Entre elas, e com uma liderança irrefutável, a Rede Globo.

Dois grandes lances que o antecederam marcaram aquele fatídico dia, após meses e meses de criminalização dos movimentos sindicais e do PT por parte dos órgãos de imprensa.

Em um deles, o empresário Abílio Diniz, dono de inúmeras empresas, entre elas o grupo Pão de Açúcar, era sequestrado em São Paulo. O cativeiro foi estourado e Diniz libertado, após 36 horas de negociações. Com os sequestradores foi encontrado material de campanha do PT e de Lula. As imagens do empresário libertado e do material encontrado circularam incansavelmente durante todo o dia das eleições.

Após o resultado, com a vitória de Collor, ficou comprovado que nem o PT e muito menos Lula tinham nada a ver com o episódio.

O outro caso – e talvez mais decisivo – foi o da edição do debate final entre os dois candidatos feita pela Globo. De acordo com o calendário eleitoral – e este episódio serviu para aprofundar ainda mais a legislação – o último debate acontece 48 horas antes do pleito e, após isto, não há mais nenhum programa eleitoral. Isto significa que as campanhas não podem fazer suas tradicionais edições.

Tudo bem, não há problema. O trabalho que era proibido aos partidos pela legislação eleitoral foi realizado pela própria Globo. A edição do Jornal Nacional do sábado, véspera das eleições, mostrava um Lula claudicante, vacilando nas respostas, diante de um Collor triunfal, em seus melhores momentos.

Mesmo as entrevistas com os dois, mostradas também no jornal, foram definitivas. Impossível esquecer Collor sorridente e confiante, vestindo uma camiseta com a estampa “Felliz Natal”, com os dois eles centrais da palavra copiando o logotipo com o seu nome, em verde e amarelo.

Deu no que deu.

O caso virou um “case” de comunicação, alvo de documentários, alterou a legislação e escancarou as portas para a luta pela democratização da mídia no Brasil.

Hoje, trinta anos depois, o mesmo Lula, desta vez ex-presidente e preso injustamente por uma operação também midiática, não se cansa de lembrar em números o quão injustamente é tratado pela mesma imprensa.

Ironicamente, após a eleição de Bolsonaro, a disputa pela hegemonia das comunicações passou a se dar entre a direita liberal e a extrema-direita ultraliberal, com ameaças iracundas do presidente a veículos com privilégios a outros. De um lado a Globo e a Folha, de outro a Record e o SBT.

Como bem diz o editor desta Fórum, Renato Rovai, nesta briga o melhor mesmo é torcer pela briga.

A ironia, no entanto, conforme apontado acima, fica por conta da Globo e congêneres entrarem nesta disputa em ampla desvantagem, vítimas agora das mesmas regras canhestras que criaram e os favoreceram tanto ao longo dos anos.

 

 

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Julinho Bittencourt

Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.

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Renato Rovai
Editor da Revista Fórum

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