Julinho Bittencourt

22 de junho de 2020, 17h00

Bacurau abriga o desbunde tropicalista, o lirismo de Chico e o engajamento de Vandré

Os seguidores dos tropicalistas achavam os de Vandré caretas e os dois consideravam Chico excessivamente lírico e passadista

Cena do filme Bacurau (Reprodução)

Caetano Veloso cantou dia desses, sem esconder o orgulho, em uma dessas lives, a sua incrível, singela e simples “Objeto não identificado”. Ao final, com os olhos brilhando, o cantor, quase feito um menino revela: “ela está em ‘Bacurau’, logo na abertura, na voz de Gal Costa”.

E é fato. A canção tropicalista, que mistura a toada brasileira com acordes de rock e efeitos sonoros progressivos abre o filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles como se prenunciasse seu conteúdo.

O próprio longa, ao rever pendengas antigas da era dos festivais, nos traz ainda a engajada “Réquiem para Matraga”, na bela e forte voz de Geraldo Vandré, composta para o clássico do Cinema Novo, “A hora e a vez de Augusto Matraga”, de Roberto Santos, de 1965.

Ainda em “Bacurau”, aparece um tanto escondida, a bossa do garoto Chico Buarque, “Benvinda”. As surpresas musicais do filme não param por aí, mas essas três bastam pra nos relembrar a grande tríade de nossa canção que movimentava aquele início inesquecível dos anos 60. As três correntes predominantes pelas quais os engajados do movimento estudantil de então se engalfinhavam.

Logo de saída, o desbunde tropicalista dos baianos, com a canção de Caetano. A seguir, a canção nacionalista e militante de Vandré e companhia. O filme traz ainda, de quebra, algumas canções de Sérgio Ricardo, o autor da trilha de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha. Para completar, o pseudo bom mocismo pós Bossa Nova de Chico Buarque.

Parece incrível imaginar isso hoje em dia, mas, na época, quem gostava de um não poderia preferir o outro e por aí afora. Eram coisas tidas como distintas, que não se misturavam. Os seguidores dos tropicalistas achavam os de Vandré caretas e os dois consideravam Chico excessivamente lírico e passadista.

Era um tempo de ânimos acirrados, plena ditadura militar e a canção popular, a léguas de distância de hoje, era o grande entretenimento nacional. As famílias paravam diante das TVs, em horário nobre, para, ao invés de ver novelas, discutir qual canção era a melhor, “A Banda” ou “Disparada” e por aí afora.

“Bacurau”, sabe-se lá se inadvertidamente, resgata em sua ambientação os tantos brasis que se digladiavam em torno da sua profícua canção popular. Em um outro Brasil, que vive novo acirramento, as velhas armas voltam a se reunir em um mosaico ao mesmo tempo mais lúdico e contundente.

O tempo, ao que parece, tornou todas as possibilidades de então factíveis e interpenetráveis. O mesmo Caetano de então, hoje um homem maduro e extremamente atento, já experimentou todas as linguagens que quis e conseguiu. Vandré desapareceu de cena, mas deixou um legado rico e indestrutível da sua visão do Brasil profundo. Chico, por sua vez, transformou a sua quadratura pós Bossa Nova em uma canção rica e rigorosa.

No final das contas, a canção brasileira se tornou muito menos presente nas noites da família brasileira, mas ganhou em multiplicidade e signos. Ao mesmo tempo, com as suas exceções de sempre, se mantém como voz ativa do país contra as suas mazelas.


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