Julinho Bittencourt

07 de abril de 2020, 11h10

“Diante de tantas carências, por que vamos ter que financiar cultura?”, pergunta o imbecil

A questão explode em meio à crise do coronavírus e expõe uma sociedade preconceituosa, doente da alma e mal-informada

Desenho de Picasso. Foto: Reprodução

A crise do coronavírus trancou a população em casa e, com isso, a economia. Inúmeros setores pararam completamente e, entre eles, o das artes e entretenimentos. Casas de espetáculo, casas noturnas, bares, circos, palcos externos, enfim, todo e qualquer lugar possível e imaginário onde um artista pode se apresentar está fechado.

Os artistas, como vários outros tantos setores da sociedade, vivem da mão pra boca, pra usar uma expressão bem popular. Isto significa que buscam, no seu dia a dia, a sua sobrevivência sem a menor possibilidade de poupança, garantias trabalhistas nem nada do gênero. Se trabalham, ganham, se não trabalham, não têm nada.

Posto isto – e veja bem que aqui não há disputa alguma para saber quem é mais ou menos prejudicado – alguns prefeitos e secretários de Cultura se dispuseram a criar maneiras de transferir seus parcos recursos para que os artistas pudessem se apresentar em suas varandas ou lives na internet e, com isso, receber algum recurso mínimo para garantir a sobrevivência enquanto dura a pandemia.

A iniciativa louvável esbarrou em duas grandes dificuldades. A primeira delas é a burocracia. É muito difícil e improvável que uma prefeitura, governo de Estado ou autarquia consiga fazer um edital em tempo recorde, que é o que todos neste momento necessitam.

A outra dificuldade, e que talvez seja a pior, esbarra na eterna má vontade de alguns formadores de opinião e celebridades das redes. Quando uma dessas iniciativas foi divulgada, a turma do ódio imediatamente se postou com o mesmo raciocínio raso de apenas um tempo: “Vamos dar recursos para que esses vagabundos façam showzinho na varanda enquanto faltam insumos em hospitais, leitos em UTI entre outros?”

Em um primeiro momento, o que se viu foi o arrefecimento dessas medidas. Prefeitos e governadores, já tão desgastados pelo ineditismo da crise, não tocaram mais no assunto. O que se viu de efetivo foi o corte por parte do governo federal de 50% das verbas do Sistema S. No meio disso, de cambulhada, o SESC – um dos substitutos mais efetivos de várias secretarias de Cultura inexistentes Brasil afora – viu a sua verba desabar.

Assim como em praticamente todos os setores da sociedade, o coronavírus com a sua característica emergencial, se transformou rapidamente em uma parábola das nossas vidas. O raciocínio, mais uma vez, é raso e de um só tempo, como sempre foi: “Para que financiar Cultura e seus fazedores se nos falta tanto?”

A esta questão, tão importante para a existência humana, uma vasta e secular literatura se ocupou ao longo de séculos de responder e não cabe aqui, neste espaço tão exíguo, tentar explicar. Sobretudo a quem, com tanta má vontade, se nega a entender.

Nos resta, no final das contas, responder com o mesmo raciocínio. Nossos artistas, músicos, palhaços, atores, figurinistas, cenógrafos, bailarinos e tantos outros vão morrer de fome, neste momento, porque produzem algo que um pequeno e tacanho setor da nossa sociedade considera desnecessário? Estes que a consideram dispensável vão escolher quem vai sobreviver?

Que o coronavírus, com todas as suas mazelas, sirva ao menos para nos transformar. Para nos fazer, enfim, menos mesquinhos, mais livres e solidários.


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