Julinho Bittencourt

19 de março de 2020, 11h51

Dois navios atracados em Cuba separam a ilha da crueldade pela da solidariedade

O navio inglês com pacientes de coronavírus acolhido em Cuba nos leva à história contada por Leonardo Padura de outra embarcação, nos anos 30, cheia de judeus, que foi entregue de volta aos nazistas

Foto: Montagem/Reprodução

Nestes tempos de coronavírus, duas histórias parecidas ocorridas em Cuba se conectam, divididas por dois governos completamente diferentes, separadas por mais de 80 anos e, sobretudo, pela crueldade de uma e a solidariedade de outra.

Uma delas, acabamos de acompanhar pela imprensa internacional com um misto de orgulho e estupefação. O navio britânico MS Braemar, da companhia Fred Olsen Cruise Lines, que levava cerca de 600 passageiros, cinco deles com diagnóstico confirmado do coronavírus, passou dias procurando um local para atracar depois de ter sua entrada negada nos portos caribenhos.

O governo de Cuba, contudo, autorizou o atraque da embarcação. “São tempos de solidariedade, de entender a saúde como um direito humano, de reforçar a cooperação internacional para enfrentar nossos desafios comuns, valores que são inerentes à prática humanística da Revolução e de nosso povo”, concluiu a nota.

O Ministério da Saúde Pública de Cuba disponibilizou os recursos necessários para transferir passageiros para o aeroporto internacional do país, onde vão pegar os voos de retorno ao Reino Unido. Além disso, quatro aviões foram escalados para a viagem, sendo um deles destinado apenas aos passageiros contaminados com o vírus.

Padura e o navio alemão St. Louis

A outra história aconteceu em 27 de maio de 1939, e é contada pelo escritor cubano Leonardo Padura, em seu livro “Hereges”, publicado em 2013. O navio alemão St. Louis ancorou em Havana com 937 passageiros a bordo, quase todos judeus fugindo do Terceiro Reich.

O governo de Fulgêncio Batista se negou a recebê-los. Apenas uma fração de refugiados desembarcariam. Os Estados Unidos recusaram entrada para o resto. O St. Louis navegou de volta para a Alemanha de Hitler, onde os passageiros foram executados.

Os passageiros do St. Louis foram calados para sempre, mas a história falou por eles.

Já a passageira do MS Braemar, Anthea Guthrie, escreveu no seu facebook, deixando também seu testemunho para a história:

“Poderiam todos os meus amigos levantar um copo por Cuba e lembrar que, quando ninguém mais nos deixaria desembarcar, Cuba deu um passo à frente?”

Nos comentários, Anthea ainda afirmou: “sinceramente estou inundada de lágrimas por sua bondade. Fizeram-nos sentir que não somente somos tolerados, como bem-vindos. Obrigada a Cuba por nos ter aberto o coração”.

Ao seu comentário, seguem-se inúmeras fotos de pacatos cidadãos ingleses, muitos com mais de 60 anos, agradecidos e comovidos com a acolhida do governo e do povo cubano.


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