quarta-feira, 30 set 2020
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Intimidade, paternidade e juventude eterna nas lives e vídeos de Caetano Veloso

Elogiar a música de Caetano Veloso é chover no molhado. Falar sobre sua inteligência, capacidade de enxergar, aceitar e renovar o novo idem. A nós, parece que Caetano está aí desde sempre, a nos entregar beleza, prazer e, de certa forma, ajudar a guiar nossas emoções.

E então, de repente, aquele que é um dos maiores signos de juventude e modernidade que conhecemos chega ali, na beira dos 80, aos 78 anos. E chega como sempre foi, arguto, antenado, rápido. E jovem.

Mais politizado do que quase nunca em toda a sua trajetória, o compositor é hoje um dos maiores e mais frequentes críticos de Bolsonaro e seu governo ultraconservador. O ultralibertador baiano deixa bem claro que ele, sua música e seu jeito de pensar são incompatíveis com a sanha retrógrada neopentecostal do presidente, seus filhos e seu governo.

O que há de novo de Caetano para nós, no entanto, parece surgir muito mais como curiosidade do que fato, mas não deixa de ser relevante. São as lives que sua esposa, Paula Lavigne faz, direto do isolamento, de dentro do apartamento onde vivem, no Rio de Janeiro.

Quase que invariavelmente sentado em um vistoso sofá amarelo, de pijamas e também quase sempre pressionado pela esposa, Caetano fala, muitas vezes pouco à vontade e em outras parecendo se divertir muito.

As inserções íntimas de Paula Lavigne nos trazem um Caetano jamais visto de maneira tão próxima. Comenta com rara propriedade temas atuais, diz que não tem cantado e protelou até onde pôde fazer a tal “live” que a esposa produtora tanto insistia.

A live foi, enfim, no dia em que completou 78 anos, na sexta-feira, 7 de agosto. O leonino Caetano se apresentou com os três filhos e fez, basicamente, o mesmo show de um de seus últimos álbuns, o belo “Ofertório”.

Coincidentemente ou não, as considerações de Caetano, bem como suas confissões no sofá, enquanto come paçoca, acabaram me conectando às minhas filhas, que se divertem e aprendem demais com ele e sua música, naquelas cenas tão íntimas, assim como eu e meus pais, em outros tempos, de maneira um tanto mais formal nos grandes festivais da TV Record.

Neste Dia dos Pais tão triste em que escrevo, onde trancados em casa contamos mais de cem mil mortes em decorrência do Coronavírus, me deparo mais uma vez com ele, desta vez com seus tuítes sobre os filhos e a paternidade.

De maneira mais uma vez quase devassada de tão íntima, Caetano diz que “ser pai é a coisa mais linda do mundo, é a coisa melhor que existe! Eu quando era bem novo pensava que nunca iria ter filho, achava que não era a minha trip, que eu não era um homem mediano, típico para ter uma família, filho e casamento”.

A seguir, ele afirma que “ter filho foi a coisa melhor que podia ter me acontecido em toda minha vida, eu nunca talvez de coisa nenhuma tenha extraído tanta felicidade”. E encerra: Ter filho dá uma ideia de um amor assim que não pede nada, completo, que justifica mesmo você fazer tudo que você faz, ter nascido, existir, suportar a ideia de que você um dia vai morrer. É uma plenitude, um amor de uma dimensão que não tem comparação. Feliz dia dos pais!”

E assim, mais uma vez, Caetano Veloso nos traduz, como sempre faz nos vários ciclos em que se renova, ao mesmo tempo em que nos entrega generosamente talento, ternura e beleza.

Julinho Bittencourt
Julinho Bittencourt
Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.