Julinho Bittencourt

25 de fevereiro de 2020, 18h53

O canto que fica do Carnaval 2020: “Ai, ai, ai ai ai ai, ai, ai, ai, Bolsonaro é o carai”

Onde tivesse gente, música, alegria, enfim, onde tivesse carnaval, tinha gente, muita gente esculhambando o presidente e seu governo

O carnaval começou na sexta-feira (21), com um boneco enorme do palhaço Bozo fazendo arminha, de terno e gravata e com a faixa presidencial. E acabou – ainda tem mais – pelo menos até o momento em que escrevo, com a vitória da escola de São Paulo Águia de Ouro, que homenageou em seu desfile o educador Paulo Freire.

Pra bom entendedor, uma vitória basta.

De Norte a Sul, de Leste a Oeste e, sobretudo, no Nordeste, o presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido-RJ) foi achincalhado. Repórteres e editores de imagem das emissoras, principalmente a Rede Globo, sambaram até a exaustão para tentar disfarçar o que estava evidente.

Onde tivesse gente, música, alegria, enfim, onde tivesse carnaval – e ele se espalha por todas as partes do país – tinha alguém fantasiado, ou com um broche, adesivo, o corpo inteiro, cartaz, bandeira, canto, grito, deboche, enfim, algo ou alguém esculhambando o presidente e seu governo.

Um dos mais divertidos era o que dizia: “Lula está livre e eu também”.

O bonecão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Olinda, era seguido por uma multidão que cantava: “Ai, ai, ai ai ai ai, ai, ai, ai, Bolsonaro é o carai”.

O bonecão de Jair Bolsonaro, que ele inadvertidamente postou em fake news que fora aclamado, também era perseguido por outra multidão que cantava: “Ai, ai, ai ai ai ai, ai, ai, ai, Bolsonaro é o carai”.

No domingo de carnaval, o Correio Braziliense, acostumado a cobrir os meandros de Brasília e seus gabinetes, estampava em sua manchete: “11 de 13 escolas do grupo especial do Rio levarão protestos à avenida”.

O humorista Marcelo Adnet fez o sambódromo explodir na escola São Clemente fazendo flexões fantasiado de Bolsonaro. Atrás dele, uma ala repleta de “laranjas”.

Por outro lado, apesar de todo o evidente achincalhe, o presidente permanece incólume, com os seus irremovíveis 30% de apoiadores (as vezes um pouco mais, noutras um pouco menos). Um outro Brasil bem menos barulhento, enfurnado em seus apartamentos, templos, igrejas ou na porta do local onde ele se hospedou no Guarujá, a pilotar motocicleta sem habilitação, permanece ao seu lado, aconteça o que acontecer.

A melhor tradução para toda a barafunda veio mesmo da cantora Elza Soares, ao ser interrompida em seu show pelo outro tradicional grito: “Ei, Bolsonaro, vai tomar no cu”. Elza, que sabe tudo e mais um pouco, foi fulminante: “Não adianta mandar o cara tomar aqui, tomar ali. O negócio é ir pra rua”.

De qualquer maneira, o Brasil que pulsa, que vai às ruas, segue em frente e segura o rojão, como diria Gonzaguinha, deixou o seu recado bem impresso neste carnaval, com o irresistível e bem-humorado sotaque nordestino que ecoou por todo o país: “Ai, ai, ai ai ai ai, ai, ai, ai, Bolsonaro é o carai”.

Que o carnaval perdure quarta-feira adentro e não se deixe terminar.


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