Julinho Bittencourt

10 de fevereiro de 2020, 09h32

Oscar 2020 nos mostra que o planeta está farto de seu atual modelo econômico

Petra não venceu, mas fosse qualquer um dos cinco concorrentes o vencedor e o discurso de Augusto Nunes e afins teria ido ao brejo – como foi – da mesma maneira

Cartas de Democracia em Vertigem (foto: divulgação)

Pois é. E não levamos mais uma vez. O belo e límpido filme de Petra Costa, “Democracia em Vertigem”, não foi o vencedor. Fica assim um gosto entre a injustiça e o complexo de vira-latas. Será que o nosso cinema é menor mesmo? Será que não somos capazes de fazer grandes filmes? Ou, pior ainda, será que é o caso de ignorarmos o Oscar, um prêmio repleto de injustiças históricas?

Acho que nem uma coisa e nem outra. Cinema é uma indústria. E bem cara. Dar visibilidade ao seu produto, como em qualquer outra indústria, é indispensável. E, se tem algo que o Oscar, com todos os seus problemas, dá é a visibilidade.

Como era esperado, logo que saiu o anúncio que o vencedor de melhor documentário era o belo, “Indústria Americana”, jornalistas e políticos de direita comemoraram. Entre eles, Augusto Nunes e Carla Zambelli. Aguarda-se muitos e mais comentários para esta segunda-feira (10).

O grande xis da questão, no entanto, é que a coceira política dos que comemoram não foi sanada com a derrota de Petra – que na verdade mesmo não foi uma derrota e isso não é fazer o jogo do contente. Ser indicada ao Oscar a coloca entre poucos, muitos poucos cineastas, sobretudo brasileiros.

Petra não venceu, mas fosse qualquer um dos cinco concorrentes o vencedor e o discurso de Nunes e afins teria ido ao brejo – como foi – da mesma maneira. Todos os indicados, sem exceção, propõem um novo mundo alternativo a este, defendido com unhas e dentes por eles, lacaios deste modelo econômico que desmorona em todo o planeta.

“Indústria Americana”, dirigido por Steven Bognar e Julia Reichert, trata sobre a fragilização das relações de trabalho nos Estados Unidos nos últimos anos, como consequência da abertura da indústria chinesa.

Todos os outros indicados na categoria vão na mesma direção. Não bastasse isso, o grande vencedor da noite como melhor filme foi “O Parasita”, do sul-coreano Bong Joon-ho. Trata-se de uma denúncia brutal da desigualdade social endêmica do capitalismo desregulado.

Cena de “O Parasita”

Além de melhor filme, “O Parasita” levou também como roteiro original, diretor e filme internacional.

Nunes e afins não têm mesmo o que comemorar. Além de Petra ter espalhado aos quatro cantos do planeta a farsa que foi o impeachment de Dilma, ela saiu desta noite muito maior do entrou e infinitamente superior a qualquer um de seus detratores.

A despeito disso, o regime que defendem feito cães, a troco de uns caraminguás a mais no fim do mês, foi insultado, questionado e massacrado por todos os grandes vencedores da noite. Esta edição do Oscar, no final das contas, nos mostrou que o planeta está no limite, com seus recursos esgotados e seus habitantes fartos de tamanha exclusão.

Para terminar, deixo aqui de presente um tuíte do grande crítico de cinema Pablo Villaça: Aos “patriotas” que comemoraram Democracia em Vertigem não vencer: 1) Que existência miserável a de vocês, né? 2) O filme rodou e repercutiu no mundo inteiro. 3) Petra e filme conseguiram um feito incrível. 4) “Indicada ao Oscar” é parte do currículo de Petra. O que tem no seu?


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