Por que ainda perdemos tempo com Rodrigo Constantino

Leitores insistem diariamente para que ele seja ignorado. O papel que ele cumpre, no entanto, deve ser acompanhado em detalhes

Leitores insistem diariamente para que a Fórum ignore jornalistas como o Rodrigo Constantino. São diários os pedidos do tipo: “deixe esse canalha pra lá”, não deem trela pra esse miserável” etc. Muitas das vezes em que me deparo com o conselho penso duas, três, inúmeras vezes. Constantino é, de fato, desprezível.

O papel que ele cumpre, no entanto, deve ser acompanhado em detalhes.

Constantino fornece combustível aos seus iguais, ou seja, a horda de bolsonaristas que trabalham todos os dias para desmontar toda e qualquer possibilidade de Estado de direito. Dependesse dele e seu público e voltaríamos a 1968 ou algo pior. Sua desfaçatez parece não ter limites. Quando achamos que chegou ao mais profundo da perversão humana, ele aparece com mais alguma.

E foi este o caso na manhã desta sexta-feira (20), Dia da Consciência Negra, ao comentar o brutal assassinato de João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos, em uma loja do Carrefour de Porto Alegre.

Amanhecemos com o gosto amargo do assassinato e, consequentemente, a inusitada e improvável justificativa de Constantino de que não há racismo no caso, publicada na também nefasta Gazeta do Povo, o último veículo da terra que ainda se digna a publicar o canalha: “O homem, um sujeito enorme, teria ficha corrida na polícia e teria agredido uma funcionária do Carrefour. Por isso ele foi espancado, não pela cor da pele”, escreve Constantino.

Realmente parece plausível que no país onde existe a Polícia Militar que mais mata negros no mundo, o caso não se trata de racismo, mas sim de um crime comum.

E mesmo que fosse apenas uma coincidência o fato da vítima ser um negro, pergunto eu aqui dos meus parcos conhecimentos legais: E se tudo isso fosse verdade, Constantino? Se realmente o Sr. João Alberto Silveira Freitas fosse um criminoso, com ficha corrida? Que direito os seguranças do Carrefour, o senhor e mais quem quer que seja teriam de espanca-lo até a morte?

Felizmente, o país dos sonhos de Rodrigo Constantino e a horda que o segue e lê está a alguma distância ainda de se tornar realidade. Os assassinos do Carrefour serão julgados e presos, pois cometeram a burrice de agir aos olhos de todos.

Outros tantos milhares de jovens negros espancados, humilhados e assassinados na calada da noite todos os dias, estes sim, bem ao gosto do jornalista, nunca terão seus casos resolvidos e seus algozes condenados. Talvez eles também não sejam alvo de racismo, pois são, na imaginação do jornalista, criminosos.

Todos ele, enfim, na imaginação paranoica de Rodrigo Constantino e seus leitores, criminosos.

E é só porque sonhamos com a luz do dia a nos equilibrar em alguma sanidade mental que o jornalista supracitado frequenta vez ou outra as páginas da Fórum.

Para lembrar a nós mesmos, ao contrário do canalha, a humanidade que ainda nos resta.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum

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Julinho Bittencourt

Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.