Julinho Bittencourt

05 de junho de 2020, 17h11

Público salva Nelson Sargento da penúria, ausente dos palcos por conta do coronavírus

O sambista colocou à venda sua coleção de discos de vinil e até o terno que usou no desfile campeão da Mangueira de 2016, quando a escola homenageou Maria Bethânia

Foto: Divulgação

Nelson Sargento já fez muito mais pelo Brasil do que o Brasil por ele. Chega, no entanto, aos seus 96 anos, que serão completados no próximo mês, quebrado. Por conta da crise do coronavírus, teve que cancelar seus shows. Em função disto, colocou à venda sua coleção de discos de vinil e seus ternos.

Nesta leva estava o que ele usou no desfile da Mangueira de 2016, quando a verde e rosa foi campeã com a homenagem a Maria Bethânia.

Mas nem tudo são espinhos. A gratidão do público com a sua obra reascendeu por conta da divulgação da penúria em que se encontrava. Uma vaquinha virtual conseguiu para ele, até sexta-feira (5), exatos R$ 47.795,74. Não é para menos. A riqueza da obra de Nelson Sargento é algo que precisamos retribuir com urgência.

Bastava o clássico “Samba agoniza mas não morre”, de 1979, para justificar a sua existência de maneira plena. O samba, uma obra-prima de construção do casamento melodia e letra, explodiu na voz de Beth Carvalho, que o chamou de “o hino do sambista brasileiro”.

Com versos curtos e diretos, a canção de Nelson Sargento parece contar parte da história dos negros no Brasil desde os primórdios da urbanização:

Samba,
Agoniza mas não morre,
Alguém sempre te socorre,
Antes do suspiro derradeiro.

Samba,
Negro, forte, destemido,
Foi duramente perseguido,
Na esquina, no botequim, no terreiro.

Os versos apresentam em um canto coral forte, cenário e seus protagonistas, suas transformações e, sobretudo, a resistência:

Samba,
Inocente, pé-no-chão,
A fidalguia do salão,
Te abraçou, te envolveu,
Mudaram toda a sua estrutura,
Te impuseram outra cultura,
E você não percebeu,
Mudaram toda a sua estrutura,
Te impuseram outra cultura,
E você não percebeu.

O sambista, porém, não ficou só nele. Compôs para a Mangueira, ainda bem jovem, em 1955, em parceria com Alfredo Português, seu amigo e protetor, o lindo samba-enredo “As quatro estações do ano”, que ficou conhecido como “Primavera”. O samba foi, desde então, gravado e regravado por inúmeros intérpretes. Seu refrão inesquecível é mais um entre tantos que a gente ouve desde sempre sem saber que é de Nelson Sargento:

Oh! primavera adorada
Inspiradora de amores
Oh! primavera idolatrada
Sublime estação das flores

Seus sambas são elegantes, bem construídos, seu canto é único, personalíssimo e se mantém firme, apesar da idade avançada. Nelson Sargento escreveu livros, participou de filmes e teve nove filhos, seis legítimos e três adotivos.

Apesar da vasta obra – tem mais de 400 canções gravadas – vive ainda de seus shows pelo Brasil. Com a pandemia do coronavírus, se viu obrigado a parar de cantar, o que causou na sua vida um grande baque econômico e emocional.

Seu público, que tanto recebeu ao longo desses quase 70 anos de carreira, não lhe faltou e retribuiu.

Que o fim da pandemia nos traga Nelson rapidamente de volta aos palcos.


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