Julinho Bittencourt

31 de julho de 2020, 17h08

Réquiem para o talento e a vida de Sérgio Ricardo

Um breve comentário pessoal sobre a vida e a obra de um dos grandes artistas brasileiros

Foto: Divulgação

Foram vários momentos marcantes com o Sérgio Ricardo ao longo da vida. O primeiro deles, ainda garoto, vendo ela atirar o violão na plateia que o vaiava, no Festival da Record de 1967. Minha mãe, consternada, dizia: “coitado desse rapaz, ele é tão bom e nem deixaram ele cantar”.

Mais tarde, soube por amigos que ele havia começado a carreira em São Vicente, cidade conurbada com a minha Santos, onde nasci e vivi maior parte do tempo.

Após isso, no início da vida de músico, adorava cantar as canções que ele havia feito para o filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha. Aquelas melodias de poucos acordes, as letras fulminantes e definitivas, marcaram as nossas vidas para todo o sempre.

Sua voz grave e empostada de maneira única e o violão, com a mão direita ágil e rica em ritmos brasileiros, nos entregavam uma canção forte e sem fórmulas prontas, que nos fazia gostar mais ainda da obra-prima de Glauber:

“Se entrega, Corisco, eu não me entrego não”. O diálogo final de Antônio das Mortes, o matador de cangaceiro, com Corisco, feito uma ópera agreste, se tornou eternamente inseparável, tanto do filme quanto do Cinema Novo. Aquela cena, com a voz do cantor, a canção, atores, luz natural e tudo o mais, nos traduzia séculos de brasilidade.

Anos depois, em um movimento inverso à carreira de Sérgio Ricardo, após um bom tempo estudando música, foi a vez de reencontrar com as suas canções do começo de sua trajetória. Aquelas bossas maravilhosas, com harmonias ricas, letras bem construídas e bem mais relaxadas eram – e são até hoje – canções de quem conhece música.

Gostava particularmente de “Folha de Papel”, uma rica canção que, anos depois, ganhou uma outra bela versão na voz de Tim Maia, no álbum que o cantor disse que fez “pra sacanear João Gilberto”.

O fato é que aquelas canções do início de carreira do Sérgio Ricardo não eram pra qualquer um mesmo. Quem quiser aprender a interpretá-las tem que ralar, estudar bastante.

Em 1979, Sérgio Ricardo foi morar no Morro do Vidigal, onde travou uma luta vitoriosa ao lado dos moradores contra remoções. Foi nessa época que fez, ao lado de Chico Buarque, Gonzaguinha, Carlinhos Vergueiro e MPB4 o show “Tijolo por Tijolo”, para angariar fundos para reerguer casas dos moradores do Vidigal. 

O período no Vidigal rendeu o belo álbum “Do Lago à Cachoeira”. Em um dos shows de lançamento consegui invadir o camarim. Ele foi muito atencioso, deu conselhos, mostrou seus instrumentos e cantou como nunca.

Anos depois, já na era da internet, Sérgio Ricardo virou amigo virtual, no Facebook. Sempre que passava por seu perfil lembrava o quanto foram importantes para todos nós a sua carreira, música e postura política.

Tem muito mais para falar sobre Sérgio Ricardo e suas obras, filmes, trilhas, canções, desenhos, enfim, um “Senhor Talento”, como anunciava o título de um de seus primeiros álbuns. Fica, enfim, essa pequena homenagem de um garoto que um dia ouviu sua música e nunca mais conseguiu esquecê-la.


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