Julinho Bittencourt

30 de dezembro de 2019, 11h07

Tony Tornado que me perdoe, mas a voz de Chico Buarque é fundamental

Parafraseando Tony Tornado, melhor do que o Chico, com sua obra e seu canto inseparáveis, é impossível

Foto: Montagem

Tony Tornado causou um pandemônio na internet logo após afirmar, durante a sua participação no programa Popstar, que “cantar pior que o Chico Buarque é impossível”. Esta discussão vai longe e dever ser tratada por vários ângulos. O principal deles, sem dúvida alguma, é que o Chico não é, nunca foi e jamais pretendeu ser cantor. Ele é o que popularmente conhecemos por “cantautor”.

A figura do “cantautor”, como o próprio termo define, surgiu a partir da explosão da canção popular, sobretudo da metade do século XX pra cá. Antes disso, cantores eram os de ópera e, posteriormente, aqueles que usavam a mesma técnica para cantar música popular. A voz empostada, brilhante caiu em desuso ou ficou relegada a um segundo plano com os modernos aparelhos de som, microfones sensíveis etc.

Ninguém precisava mais gritar. Bastavam alguns sussurros e tudo era entendido perfeitamente. No Brasil, o fim do protagonismo do bel canto se deu na década de 50, com os cantores das boates das grandes cidades, principalmente Rio de Janeiro, no famoso Beco das Garrafas. O fenômeno culminou com o surgimento da Bossa Nova e, particularmente, o maior intérprete nosso de todos os tempos: João Gilberto.

Chico Buarque é filho de João, decorrência direta dele e da música que ele cantava, composta em sua maioria e importância por Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Desde então e até hoje, como foi o caso de Tony Tornado, passou a ser muito comum músicos e cantores mais conservadores, muitos deles superados pela nova onda, insistirem que bons mesmos eram aqueles que gritavam. Quem nunca ouviu isso?

Ouço muito os primeiros discos do Chico, com aquelas composições definitivas como “Roda Viva”, “Pedro Pedreiro” entre outras. Era então um menino inexperiente com voz incomum e um tanto anasalada, nada próxima das vozes dos grandes “cantores”. Havia sim uma certa insegurança, mas por outro lado, já aparecia uma capacidade infinda de dizer as palavras corretamente, interpretar e principalmente afinar. Em outras palavras, um cantor que já sabia usar a inteligência a seu favor para encobrir as deficiências naturais.

O tempo passou e Chico, de fato, aprendeu a cantar. À medida em que seus discos iam sendo gravados, ficava cada mais clara a sua capacidade de entoar as notas e sílabas. Em um dueto com Zizi Possi, para a canção “Pedaço de mim”, do seu álbum de 1978, por exemplo, Chico faz uma segunda voz complicadíssima na última estrofe. São vários os outros casos de sua capacidade enquanto intérprete e, porque não, cantor que temos em seus álbuns e participações.

Hoje em dia é muito comum a gente ouvir, e eu compartilho disso, que as canções do Chico soam muito melhor na voz dele mesmo do que de outros grandes cantores. Pelas mesmas razões apresentadas no começo deste texto, e que foram sendo aperfeiçoadas ao longo dos anos, Chico se tornou sim um grande cantor. Um artista indivisível da música que faz tão bem.

Parafraseando Tony Tornado, melhor do que o Chico Buarque, com sua obra e seu canto inseparáveis, é impossível.

 


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