Julinho Bittencourt

27 de janeiro de 2020, 16h10

Tunai e as canções que cabem tão dentro de nós

Autor de canções díspares como “Frisson” e “As aparências enganam”, Tunai ia do mais extremo requinte ao romantismo derramado sem nenhum pudor

Foto: Divulgação

O compositor Tunai esteve m Santos, em 2005, para uma apresentação simples, acompanhado apenas com o seu violão e sua voz. Ao contrário do seu irmão João Bosco, Tunai não era nem um grande instrumentista e, muito menos, um cantor propriamente dito.

Mas, para surpresa de todos, era sim um grande compositor, repleto de canções gravadas por vários intérpretes da nossa canção. Obras feitas em vários estilos, que vão desde a elaborada “As aparências enganam”, parceria sua com Sérgio Natureza, até seu maior sucesso, a extremamente pop e simples, “Frisson”.

Naquela noite, logo após o show, foi convidado para visitar um bar contíguo ao Municipal, tocado por um grupo de teatro. Se encantou com a garotada e o resultado foi tão óbvio quanto inesperado. Acabou cantando durante várias horas, tanto as suas canções quanto as do irmão e de vários outros autores.

Com uma paciência e simpatia sem fim, atendeu a pedidos, repetiu “Frisson” inúmeras vezes e espalhou seu sorriso que nunca deixava seu rosto a todos. Por não ter feito tanto sucesso como cantor, Tunai surpreendia mesmo pelas composições. A plateia não cansava de exclamar: “ah, mas essa é dele também?”.

Sua lista de composições é vasta e repleta de joias da música brasileira. Obras que foram imortalizadas pelos nossos maiores intérpretes, como Gal Costa (Eternamente e Olhos do Coração), Fagner (Azul da Cor de um Blues), Jane Duboc (Doce Mistério e À Cores), Emílio Santiago (Perdão), Fafá de Belém (Na Hora Exata e Se Eu Disser), Zizi Possi (Numas), Beto Guedes, Joanna, Sandra de Sá, Sérgio Mendes (Olhos do Coração).

Como se tudo isso fosse pouco, foi parceiro de Milton Nascimento em algumas canções, entre elas o clássico “Certas Canções”, o grande sucesso do álbum “Anima”, de 1982. Diz a lenda que a inspiração dele e do Milton para ela foi a canção “Ebony and Evory”, de Paul McCartney, gravada por ele e Stevie Wonder, uma ode contra o racismo.

Tunai também compôs canções que foram temas de novelas da TV Globo, como “Eternamente” (Torre de Babel), “Sobrou Pra Mim” (Fera Radical) e “Sintonia” (Ti, Ti, Ti).

Era capaz de ir do mais extremo requinte ao lirismo e romantismo derramado sem nenhum pudor. Um bom exemplo disso é a versão que fez para a melosa “My Love”, de Paul McCartney, que virou “Meu Amor” e foi parar na trilha da novela “Despedida de Solteiro”, da Rede Globo, de 1992.

José Antônio de Freitas Mucci, o nosso Tunai, morreu na madrugada deste domingo (26), aos 69 anos, vítima de uma parada cardíaca. Nossa música perde com ele um compositor versátil que povoou nosso imaginário, sobretudo nas décadas de 80 e 90.

Como poucos, era capaz de compor em vários gêneros e acertar em cheio em todos. Uma grande perda.


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