Julinho Bittencourt

18 de fevereiro de 2020, 13h27

Zeca Baleiro lança o EP “Escória” para exorcizar os monstros do nosso novo tempo

Sem citar nomes e muito menos sobrenomes, Zeca Baleiro vai na jugular da polarização política e ataca inimigos nem um pouco imaginários

Foto: Reprodução

O cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro acaba de lançar um EP com quatro canções para o carnaval. O pequeno álbum, que já está nas plataformas digitais, atende pelo nome de “Escória” e é todo formado por quatro marchinhas, bem no estilo antigo. Ou quase.

O que elas têm de diferente mesmo é o conteúdo. Na contramão do que se espera de marchinhas para os quatro dias de folia, Zeca abriu mão da leveza e partiu para uma tônica assumidamente raivosa.

A canção título, por exemplo, não tem papas na língua: “Vou lhes dizer o que é política / O vagão de lixo passa / E o trem da história fica / Vou lhes dizer / O que é arte e cultura / Não vai crescer nem capim / Sobre vossa sepultura”.

Sem citar nomes e muito menos sobrenomes, Zeca Baleiro vai na jugular da polarização política e ataca inimigos nem um pouco imaginários com citações de bandas da década de 80. A primeira delas vai para os Titãs em um de seus clássicos.

“Bichos Escrotos II”: “O Brasil abriu a tampa do esgoto / Só bichos escrotos / Só ratos, só ratos / Esses diabos querem acabar com tudo / Com a civilidade / Com a nossa alegria”.

O outro artista homenageado é Cazuza e o seu clássico “Blues da Piedade”. Desta vez, mesmo sem citações, Zeca deixa claro que o seu alvo é o já defenestrado secretário Nacional de Cultura, Roberto Alvim, que chamou a atriz Fernanda Montenegro de “sórdida”, em sua breve e tumultuada passagem pelo governo.

Em “Babaca Mané”, Zeca ataca: “Respeita a Fernanda Montenegro, babaca / Tu saiu de que cloaca? / Respeita o Martinho da Vila, mané / Você não vale nem a sola do seu pé”. Ao final, a citação a Cazuza: “Sem o brilho nos olhos / Sem a chama que arde / Como pedir piedade / Pra essa gente careta e covarde?”.

Os arranjos impecáveis, repletos de metais, guitarras baianas, muita percussão e vocais, quase sempre afeitos à alegria, desta vez dão lugar a frases contundentes, palavrões, escárnio e uma posição clara.

E são justamente os solos de guitarras em intervalos que fazem a introdução para a curiosa “Você não quer dividir o avião”. Na canção, Zeca aborda uma das grandes polêmicas da popularização das passagens aéreas, que provocou reações contrárias: “Você não quer dividir o avião / Com pobre, né, irmão? / Se você pudesse você viajava em dois assentos / Seu ego gigante não sabe o que é constrangimento”.

No final das contas, muito mais do que feito para tocar nas ruas e bailes, “Escória” é um desabafo do compositor, que aproveita de maneira inusitada e debochada, para se colocar diante da nossa situação atual, talvez ainda mais inusitada ainda.


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