Leandro Seawright

09 de abril de 2019, 07h21

Qual é a agenda do campo democrático?

Em artigo, Leandro Seawright diz: “Estejamos certos de que chegou o tempo de pensar uma agenda arejada, arrojada e de repensar o papel dos partidos políticos e da atuação política no presidencialismo de coalização”

Foto: Wikimedia Commons

“O conceito de progresso deve ser fundamentado na ideia de catástrofe. Que ‘as coisas continuem assim’, eis a catástrofe.”
Walter Benjamin

A derrota nas últimas eleições presidenciais faz pensar sobre o futuro dos democratas.

E o futuro dos democratas necessita de uma agenda clara que responda sem muita divagação à questão: por onde se começa uma reconstrução política?

Quando apenas se reage às notícias diversas, aos eventos mais doloridos e aos procedimentos antidemocráticos mais do que se apresenta propostas, torna-se necessário refazer os horizontes.

Não restam dúvidas de que as informações disseminadas com velocidade insuperável, as desinformações e os conteúdos raivosos das redes sociais são indicativos de que a pós-política está ocupando os espaços.

Idas, vindas, avanços, recuos, fakes, memes, entre outras coisas, além do culto ao absurdo, são movimentos calculados – quase que como estratégia de guerra comunicacional.

Já é consenso de que os tanques nas ruas, as investidas bélicas e as ostensividades não os únicos meios para a destruição de um Estado Democrático. A destruição é mais sutil: está no plano da linguagem quase que em uma histeria coletiva – com todos odiando a todos por todos os lados.

A minha proposta é a de que deixemos de fazer a reflexão relacionada apenas ao elemento tosco da política contemporânea. Proponho que avancemos para a esfera econômica, entre outras – realizando um debate honesto sobre as nossas desventuras brasileiras, desvinculando-nos do debate sobre os costumes por exemplo.

Assim como sabemos que em um processo eleitoral, quem fixa a pauta tem vantagem sobre quem não o faz, agora é preciso fixar a agenda do campo democrático. Qual é a agenda dos democratas? Da outra agenda já estamos fartos de discutir e de reagir: trata-se, entre outras coisas, da ruptura truculenta do pacto democrático criado no ambiente pós-Constituição de 1988 e do rearranjo das elites financeiras em torno do neoliberalismo tardio.

Que fazer?

Faz-se necessário definir prioridades.

Entre muitas outras:

  1. Educação sem grandes ilusões – no chão da escola, das universidades;
  2. Combate ao aumento da miséria e do vertiginoso desemprego que assola brasileiras e brasileiros;
  3. Soluções de segurança pública se achar que este tema pertence a um único campo político;
  4. Repensar o papel das instituições e o fortalecimento das instituições;
  5. Aprender a fazer um uso ético e eficiente da tecnologia, reparando atrasos;
  6. Refletir sobre a economia com solidariedade e com estímulos aos investimentos;
  7. Buscar o arejamento dos atores da arena política: porque o perfil está mudando;
  8. Renovar quadros, buscando por perfis inovadores.

Estejamos certos de que chegou o tempo de pensar uma agenda arejada, arrojada e de repensar o papel dos partidos políticos e da atuação política no presidencialismo de coalização.

Sobretudo, evitando as armadilhas da discórdia e da falta do diálogo.


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